24 março 2011

Dias Agudo...

in "Rómulo de Carvalho [Memórias]"
Ed.Fundação Calouste Gulbenkian
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Francisco Dias Agudo entre o Prof.Vieira de Almeida
e o Dr.Alexandre de Almeida Garrett, em 05.05.1956


"Cap. 98 (pág 267)
Como vos disse fui colocado no Liceu de Pedro Nunes, em Lisboa, por convite, situação que esse liceu permitia por ser Liceu Normal, em Outubro de 1957.
(…)
Nesse ano escolar de 1957/58, o Liceu de Pedro Nunes ia regressar às suas funções de Liceu Normal interrompidas durante uns anos, e, para o efeito, seguindo uma estratégia minuciosamente planeada, iria ser nomeado um novo reitor. Pretendia-se dar ao Liceu um cunho pedagógico exemplar, que não fosse apenas normal de nome mas um modelo institucional que dignificasse o ensino secundário olhado com respeito A função não era fácil de desempenhar e de todos os nomes possíveis que ocorreram ao ministro (então Francisco Leite Pinto) ou lhe chegaram aos ouvidos, houve um onde assentou toda a sua aposta. O homem em causa chamava-se Francisco Dias Agudo e era, na altura, professor de Matemática no Liceu de Gil Vicente, também em Lisboa.
(…)
A modo de parênteses vos direi (…) que este homem, há uma dúzia de anos atrás, já fora reitor desse mesmo liceu de Gil Vicente. Era então ministro da Educação um afamado jurista, salazarista, de nome Caeiro da Mata, e deu-se o caso de um aluno desse liceu, pertencente a certa família amiga do ministro, ter sido aprovado, no exame do ano final do curso secundário, então designado 7ºano, com 13 valores. A nota não era má mas, a esse exame final, iria seguir-se um outro como passo necessário para o ingresso na Universidade. Quando os alunos tinham, no mínimo, 14 valores no exame final do ensino secundário, ficavam dispensados do seguinte exame de ingresso na Universidade. Este rapazinho, agora com 13 valores, era obrigado a fazer esse exame de entrada.
Com semelhante regra era compreensível que os júris dos exames liceais de fim de curso evitarem (?!) atribuir 13 valores aos examinandos. Com um jeitinho dava-se-lhes o 14; se não fosse possível dava-se-lhe o 12. Os 13 só em casos muito particulares.
Ora sucedeu que este aluno, protegido do ministro da Educação tivera nota negativa numa das provas escritas do seu curso mas como tinha positiva em todas as outras o júri aumentou-lhe a tal negativa. Com esse aumento ficou-lhe a média final em 13 valores, os quais 13 se deixaram ficar assim mesmo, atendendo a que o aluno já fora beneficiado.
(…)
Quando o ministro Caeiro da Mata soube do caso enviou um ofício para o liceu ordenando que o 13 passasse a 14. Então, o reitor Dias Agudo, informado do que se passava pelo respectivo júri, pôs-se em contacto com o sub-secretário de Estado da Educação, pedindo-lhe que informasse sua Excelência o Senhor Ministro que o júri mantinha os 13 valores atribuídos ao aluno e porquê. O ministro deu um berro e renovou a sua ordem, a que o reitor já não deu resposta
Quando depois de férias. O pai do aluno foi à secretaria do liceu buscar os documentos necessários para a matrícula do filho na Universidade, é que soube que o jovem não tinha sido aprovado com a passagem dos tais 13 para 14. Correu ao amigo ministro que, de imediato, chamou o reitor ao telefone exigindo-lhe que passasse, sem demoras, os 13 para 14 ou então que se demitisse do seu cargo. Respondeu-lhe o reitor que nem uma coisa nem outra. Para aumentar a nota não tinha poder para isso; para pedir a demissão não tinha motivo para o fazer. Então está demitido – bradou-lhe o ministro Caeiro da Mata poisando ruidosamente o telefone no respectivo poiso. E, de imediato, procurou novo reitor com a condição de subir o 13 para 14. E assim tudo acabou bem. O 13 subiu para 14 e o Dias Agudo perdeu a reitoria permanecendo – Deus louvado! – no mesmo liceu no exercício da sua função de professor."

.Conheci, em 1962/64, o professor Rómulo de Carvalho autor deste texto, às aulas de quem assisti, como estagiário, naqueles dois anos lectivos que passei no Liceu Normal de Pedro Nunes e o reitor Dias Agudo por quem tínhamos o maior respeito pela sua competência e verticalidade. Francisco Dias Agudo também foi aluno do Liceu Nacional de Nun'Álvares, em Castelo Branco.
Voltaremos a esta obra de Rómulo de Carvalho pondo em destaque alguns acontecimentos por ele descritos e que foram meus contemporâneos.

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