21 setembro 2017

E aqui vamos agora...

Miguel Torga escreveu este poema 
em 16 de Maio de 1940. Estava em Coimbra e
deu-lhe o nome de "Nocturno" .
.
Miguel Torga
.
Nocturno
.
Quatro da madrugada.
Vivos,
sob o arco do céu,
eu
e um cão tão magro como eu.
.
Sem prévia combinação, sem nada,
tivemos um encontro nesta rua
a esta hora marcada
pelo aceno da lua.
.
E aqui vamos agora,
num amor vagabundo
de quem não se conhece e se namora,
a encher os dois sozinhos este mundo.
.
Miguel Torga
in."Diário I"

20 setembro 2017

Humor antigo...

in. "O Mundo ri",
de Dezembro/63
.

- Se ele te convidar para ires a sua casa ver uma colecção 
de estampas japonesas desconfia: é verdade...

19 setembro 2017

Escrito na pedra...

in."Público"
02.09.2017

"Afirma com energia o disparate que quiseres e acabarás por encontrar quem acredite em ti."
.
Vergílio Ferreira
1916 - 1996
escritor

18 setembro 2017

A imbecilidade da praxe...

...e necessidade de quarentena dos seus praticantes.
É o título, comprido, do Espaço Público que
José Pacheco Pereira mantem aos sábados,
no jornal Público.
.
José Pacheco Pereira
.
JPP começa por colocar em destaque, alguns mimos que foi buscar ao "Manual de Sobrevivência do Caloiro": "O caloiro é incondicionalmente servil, obediente e resignado"; "não é um ser racional"; "Não goza de qualquer direito." 
.
(...)
Há momentos em que se percebe muito bem por que razão este país não anda para a frente e um desses momentos é quando se traz para as ruas o espectáculo da praxe. As universidades, salvo raras e honrosas excepções, não a proíbem dentro das suas instalações, e, quando a escorraçam para os espaços públicos, as autarquias deviam tratá-las como um problema de saúde pública que exige uma forma qualquer de quarentena. Não o fazem. É por isso que não andamos para a frente.

As autarquias permitem que milhares de cidadãos sejam insultados pelo espectáculo da imbecilidade colectiva que se passa nos jardins e nas ruas. Aliás, o que se passa não é diferente do pastoreio das claques de futebol pela polícia de choque, em que um exército excitado e violento ameaça entrar em guerra com o exército do lado. Os espaços públicos pertencem ao público, a todos nós, não podem ser apropriados por actividades violentas e as praxes são um espectáculo de violência da estupidez. E a estupidez até pode matar, mas, mesmo que não mate, magoa a cabeça, o pensamento, a razão, a decência e boa educação. É por isso que não andamos para a frente.

Em muitos sítios não se pode fumar, ter atitudes “indecentes”, provocar os outros passeantes, mas, se forem os meninos e meninas da praxe, está tudo bem.

Mas não está. Se se quer permitir as praxes — o que para mim está bem fora das escolas e das ruas —, ao menos que se proceda com medidas de sanidade pública, como seja atribuir-lhes uns locais vedados, cercados por altos muros, os curros das praças de touros, ou os lotes vazios da selva urbana, os sítios poluídos onde ninguém quer ir, os matadouros abandonados, as fábricas em ruínas, aqueles cenários dos filmes de terror. Aí, se quiserem, podem dedicar-se a rastejar pelo chão, a lamber coisas inomináveis, a fazerem genuflexões “servis” como mandam os manuais da praxe. É por isso que não andamos para a frente.
.
Quem tem também muitas responsabilidades são os paizinhos e as mãezinhas dos dois lados da praxe, os que mandam e os seus servos, certamente também porque muitos deles andaram já nessas andanças e pelos vistos gostaram. Claro, quando as coisas correm mal, e já correram muito mal, então protestam, mas já é tarde de mais. Eu sei bem que muitos dos praxados e praxantes já são jovens adultos, sem estarem sujeitos à autoridade paternal, mas presumo que continuam a viver com as mamãs, e à custa dos progenitores, pelo que leverage existe — mas, como tudo neste infeliz país destes dias, não é exercido. Não é exercido pelas autoridades académicas que, quando muito, olham para o lado para não verem o nojo de tão baixa função em tão alta universitas, cheia de dignidade latina e de indignidade humana. É por isso que não andamos para a frente.

Não há nada de bom nas praxes, por muito que haja uma escola de sociólogos e antropólogos que aceitam sempre justificar tudo com o fabuloso argumento dos ritos de passagem e da “integração”. Mas, em bom rigor, o que é que distingue estas exibições de autoridade do segundo ano sobre os caloiros do consentimento social da violência doméstica? E afirmam que estas brincadeiras imbecis ajudam os meninos e meninas a “integrarem-se” nas universidades. Estou mesmo a ver os praxados a correrem para os livros no dia seguinte ao fim das semanas da praxe, já muito “integrados” em todas as virtudes dos altos estudos. É por isso que não andamos para a frente.

Tenho muita honra em ter toda a vida combatido estas imbecilidades socialmente perigosas, algumas vezes de forma, digamos, mais consequente. Não conto desistir e talvez assim assegure um lugar no paraíso e possa ver, da minha branca nuvem, as actividades dos diabos. Porque de uma coisa eu tenho a certeza — para entrar no Inferno há praxes, para “integrar” os malditos no exercício da autoridade diabólica, humilhando-os fazendo-os rebolar na lama sulfurosa do Inferno. Boa praxe!

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No "Público"
em 16.09.2017 

16 setembro 2017

As licenciaturas honoris causa...

Hoje, dia 16 de Setembro
na página de
João Miguel Tavares 
in Público...
.
João Miguel Tavares
.
Apenas alguns excertos:
"Os doutoramentos honoris causa existem em todo o mundo. As licenciaturas honoris causa só existem em Portugal. Depois de José Sócrates, depois de Armando Vara, depois de Miguel Relvas, eis que chegou a vez de o comandante nacional da Protecção Civil ser apanhado na posse de uma licenciatura de abrir o pacote e juntar água. Rui Esteves já se demitiu, para infelicidade do próprio e felicidade do Governo, que queria correr com ele depois do desastre de Pedrógão.É uma ironia portuguesa: em vez de ter sido demitido pelos erros cometidos a fazer o seu trabalho, demitiu-se por causa dos erros cometidos a fazer a licenciatura de que precisava para trabalhar.
Há duas dimensões diferentes neste problema, ambas lamentáveis. A primeira é a trafulhice académica. Durante muitos anos, o espírito Novas Oportunidades andou à solta pelo país, e tirar uma licenciatura tornou-se mais fácil do que tirar a carta de condução. Desde que o aluno tivesse "conhecimentos", bastava-lhe assistir a duas aulas, pedir três dúzias de equivalências com base na "experiência profissilonal", fazer uma oral distendida com um professor amigo, entregar um par de projectos ", e já estava. O trabalho intelectual era substituido pelo trabalho administrativo. Foi assim que estabelecimentos manhoso andaram a ganhar a vida durante anos a fio, aproveitando a expansão do ensino superior para expandir as fronteiras da cunha, essa grandiosa especialidade nacional.
Só há uma outra especialidade nacional, e não menos grandiosa -- a parolice do canudo e a necessidade de todos sermos doutores, mesmo em áreas em que a experiência no terreno é infinitamente mais importante do que o cálculo integral ou as curvas de titulação.
(...)
Tristemente, a lei portuguesa passou a exigir, no domínio da protecção civil, que as dezenas de comandantes operacionais do país  possuissem uma licenciatura. Notem: não uma licenciatura em Protecção Civil, que garantisse o profissionalismo de uma área fundamental de intervenção do Estado- uma licenciatura qualquer.
Vale a pena citar o primeiro ponto  do Artigo 22 do Decreto-Lei 73/2013 (sucessor de uma le mais antiga, que estabelecia uma transição de dez anos nesta área), àcerca as regras de recrutamento para a Protecção Civil: "O recrutamento do Comandante operacional nacional e do segundo comandante operacional nacional, dos adjuntos operacionais nacionais, dos comandantes operacionais de distritais é feito de entre indivíduos que possuam licenciatura e experiência funcional adequadas ao exercício daquelas funções.
Mesmo com "experiência funcional" , o resultado é óbvio: um licenciado em Estudos Asiáticos com três meses a segurar uma mangueira pode ser comandante da Protecção Civil; um não-licenciado com décadas de experiência não pode.
(...)
O licenciado Rui Esteves--nova ironia-- foi um dos principais responsáveis por esse trabalho. Tal como no totoloto, a culpa merece uma tripla : é de Rui Esteves, é do Politécnico de Castelo Branco, que lhe concedeu a licenciatura; e é também  de um Estado que estimula a falcatrua através de leis insensatas.

Hoje há pintura...

Rembrandt
pintor holandês
1606-1669
.
.
Artemísia
in. Museu do Prado

15 setembro 2017

Parabéns!... 15 de Setembro...

Nasceu em 15 de Setembro de 1765...
Faz hoje 252 anos
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Manuel Maria Barbosa du Bocage

14 setembro 2017

Libertadores...

...foi o título escolhido por Faíza Hayat
para este conto que publicou em Março de 2008
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Faíza Haiat

Libertadores

Tive, um dia, uma discussão violenta com um amigo africano a propósito de libertadores. Ele nomeou a geração da libertação e eu emendei para geração da traição.


Foi nesse ponto que nos zangámos, porque ele, tendo alinhado na trincheira dos libertadores, não admitiu “insultos de quem nunca teve de pagar para ser livre”.


Referia-se a mim e eu também achei que não era bem a prateleira onde queria estar.

A zanga entre nós durou uns tempos. Depois, apareceu na minha caixa de correio uma carta. Entre muitas reflexões, continha citações de um herói da libertação africana sobre a maior ameaça ao sucesso da luta: a traição.

Dizia esse libertador sobre a gente que fermenta à volta dos lideres: “O que é que eles querem ao fim e ao cabo? Querem casas bonitas, calças e fatos de tergal luzidios, joias por todos os lados, roupas das mais esquisitas, ter quantas mulheres querem quando se trata de homens, fazer o que bem entendem quando se trata de mulheres. Ambição profunda, camaradas. Compreensível até um certo ponto, mas tremendamente medonho a partir de um certo ponto também. Compreensível porque nós, africanos, nunca tivemos nada e, quando o caminho se abre para termos coisas, queremos ter tudo num dia só. E então, para ter tudo num só dia, traímos. Ambição e mais ambição.”

Nota do meu amigo sobre esta passagem: “Onde se lê ‘africanos’ podes pôr ‘oprimidos’ de qualquer parte. Romantismos à parte, não é que a revolução não seja um convite para jantar. Não é, claro. Mais: a única revolução é ir dormir sem ceia.


Escrevi uma carta de resposta que, a bem dessa amizade, nunca pus no correio. Encontrei-o há tempos, numa mudança de casa. Dizia-lhe eu: “Os libertadores por quem tu continuas a lutar não chegaram a sentar-se à mesa. Os que se sentaram foi para mandar nas migalhas.

O Zimbadwe foi a votos. Do que conheço de Robert Mugabe, um farol da libertação africana, é que é um velho sociopata que assegurou o poder à custa do sangue (incluindo o do seu próprio irmão, como é voz corrente entre os zimbabweanos) e que, na última década, usou as estruturas do partido para desmantelar o melhor país entre o Cairo e o Cabo.

É infindável, e penosa, a lista de outros libertadores, por todo o mundo, que nas últimas décadas do século XX deram contribuições idênticas à infelicidade dos seus povos.

Os portugueses, por proximidade cronológica, deviam ser mais realistas, ou mais cautelosos, com a geração da traição. Pelo contrário, acredito que somos a sociedade (pos-) colonial que, na Europa, mais dificuldade tem em descolar dos mitos e das mentiras dos heróis da “libertação”. E que, por isso, continuam viciados na legitimação de ditaduras, totalitarismos, guerras civis e esquemas de pilhagem e humilhação.

O que esquecemos, ainda hoje, é um dado empírico triste: dentro de um movimento de “libertação”, os que assistem à hora da vitória são, por regra, os piores daqueles que fizeram parte da luta.

É essa a biologia, embora não a genética, de muitos movimentos: do MPLA e da UNITA ao PAIGC, à Frelimo (a Renamo, pela sua génese, nem conta nesta prateleira), ao ANC, à ZANU-PF, aos “mujahedines” afegãos ou ao UCK albanês.

O que esquecemos, infelizmente, é que as vitórias não se obtêm pela bondade da causa, mas pela persistência da astúcia. A poesia conta bastante menos que a máquina. E são os homens da máquina que, no momento da independência, tomam normalmente as rédeas do projecto nacional.

Os outros, os autênticos libertadores, ficaram pelo caminho, engolidos de alguma maneira pela lógica ou a conivência da máquina. Como Amílcar Cabral ou Eduardo Mondlane ou Viriato da Cruz. Nós, portugueses, devíamos saber melhor…

“A meu ver, nunca é demasiado confiar nos homem, mas chega um momento em que é preciso parar. Quando começamos a ver que já está a ir demasiado longe”, citava o meu amigo desavindo na carta de reconciliação.

Esta, como as outras, eram frases de Amílcar Cabral aos quadros do PAIGC, em 1971.

“Não há ninguém que não acredite em Deus que não o tenha enganado ainda”, explicou também Cabral aos traidores que o rodeavam e que continuam, hoje, a comer as entranhas da sua nação. Os “libertadores” no activo são, em geral, os parasitas do sonho colectivo de libertação—como na Libéria do século XIX ou no Timor-Leste do século XXI.

Cabral, claro, era um timoneiro com moral. Por isso ia morrer – e deu-se ao trabalho de explicar por quê.

13 setembro 2017

Humor antigo...

...com o traço de 
Ward

- Arnaldo, sinto-me tão romântica!... Importas-te de ir lá dentro 
e dizer ao Xico para vir ter comigo?**

12 setembro 2017

Escrito no vento...

"A independência tem um preço! Sempre o soube e nunca me recusei pagá-lo."
.
Eugénio de Andrade

11 setembro 2017

São quadras, meu bem... São quadras!...

.
Sê benvindo nesta casa
Se és deveras meu amigo!
Entra, abraça-me, descansa,
Senta-te à mesa comigo.

.
Eugénio de Castro

10 setembro 2017

08 setembro 2017

Parabéns!... 8 de Setembro

A Alexandra faz anos hoje!!
Beijinhos e um bom dia de aniversário...
.
Alexandra Kolontai Fernandes Ferreira Godinho

07 setembro 2017

Os novos censores..

in. "Observador"
em 02.09.2017
escrito por 
Alberto Gonçalves
.
Alberto Gonçalves
(sociólogo e colunista)
.
"A que título, em Portugal, os novos censores ignoram as inúmeras “discriminações” em Defoe ou Eliot, Twain ou Nabokov? Sensatos, os meus botões responderam: porque os novos censores nunca leram nada assim, e se leram não perceberam."

06 setembro 2017

Escrito no vento...

in."Público"
27.08.2017

"É um emprego como outro qualquer. A erva cresce, as aves voam, as ondas batem na areia. Eu bato em pessoas."
.
Muhammed Ali
1942-2016
boxeur

04 setembro 2017

Humor antigo...

com o traço de
Bernard Augesert

.
Sem palavras...

03 setembro 2017

Eles foram professores do Liceu...

Mário Caes Esteves
.
Nasceu em Lisboa, S.Sabastião da Pedreira, em 13 de Setembro de 1898 e faleceu no Terreiro do Paço, em Lisboa, no Ministério do Interior.
Foi professor provisório do 4ºGrupo (História e Filosofia) durante dois anos. A sua primeira posse sucedeu em 29 de Março de 1927, no ano lectivo de 1926/27. No seu segundo ano lectivo assinou o auto de posse no dia 15 de Outubro de 1927.
Mário Caes Esteves tinha sido aluno do Liceu havendo registo da sua frequência escolar relativamente ao ano lectivo de 1911/12, na 1ªTurma do 4ºAno.
Mais tarde foi Presidente da Câmara de Setúbal, foi Governador Civil do Distrito e acabou como Secretário Geral do Ministério do Interior.

02 setembro 2017

Marcelo e Trump...

No "Público", escreve hoje o jornalista
José Pacheco Pereira
na sua coluna de sábado
"Espaço Público"

José Pacheco Pereira

A mera junção destes dois nomes parece insultuosa, tanto mais que são duas personagens muito distintas e que detestariam em se verem reunidos num mesmo título. Na verdade, Marcelo tem pouco a ver com Trump e vice-versa. Marcelo é um político sofisticado, culto, elegante, educado, honesto e Trump é uma personagem grosseira, ignorante, brutal, corrupta e corruptora e ameaçadora. Acima de tudo, Marcelo é um político democrata e Trump é um autocrata, a diferença mais substancial. Porém uma coisa que têm em comum: é o facto de ambos terem chegado ao poder através de uma contínua utilização do sistema mediático moderno, com criatividade e intuição, moldando o universo dos media aos seus interesses pessoais e políticos. E aqui pode-se fazer uma comparação entre ambos, e percebendo-os, perceber algumas das características da política em democracia, em particular a sua ligação/sujeição aos mecanismos mediáticos.Nessa comparação, Trump aliás tem vantagem porque, mais do que Marcelo, combinou a manipulação sistemática dos media, com a expressão de interesses sociais de grupos de americanos que se sentiam excluídos da representação política, enquanto Marcelo depende, no seu sucesso, da manutenção de uma conjuntura simbólica de apaziguamento que lhe é favorável enquanto houver estabilidade política. Por isso, Trump, para além do que trouxe de novo à relação da política e dos media num contexto populista, criou um ponto sem retorno, e é um revolucionário. Já Marcelo não pode ainda definir a sua presidência como um tempo sem retorno, podendo ser aliás um momento de transição e passagem. Na verdade, o que é novo no tempo de Marcelo não é a “política dos afectos”, é a “geringonça”, e esta não é de sua autoria.
Trump e Marcelo são políticos muito intuitivos e inventivos e perceberam como é possível usar os media modernos, do jornalismo às “redes sociais” que não são jornalismo. O caso de Marcelo é exemplar no jornalismo e na comunicação pós-.25 de Abril. À data do 25 de Abril não havia qualquer experiência de jornalismo em democracia, pesem embora os esforços de várias gerações de jornalistas, em particular a gerada nos anos sessenta, para oferecerem uma alternativa quer ao proselitismo dos propagandistas do Estado Novo, quer ao silêncio demasiado longo da Censura. Mas isso não é uma plena experiência de jornalismo em democracia, o que explica que na euforia da liberdade, a maioria destes jornalistas, que vinha da oposição política e estudantil, gerassem um jornalismo militante de esquerda, que acompanhou os ciclos políticos do PREC até à “normalização” democrática. Com uma excepção, o Expresso com Marcelo Rebelo de Sousa.
No Expresso, Marcelo inicia uma escola de jornalismo que foi a primeira típica da nossa democracia, e que veio mais tarde a trazer para a rádio e para a televisão. Ele foi o mestre, mas os seus discípulos ainda hoje usam a “gramática” e o “léxico” do estilo de jornalismo que ele criou. Usam a forma de pensar de Marcelo e o seu vocabulário, naquilo a que chamam “jornalismo político”, mas estão muito longe da mestria de Marcelo. Os artigos de opinião, as perguntas em entrevistas, a lógica dos títulos, a enunciação dos “problemas”, os “destaques”, toda a mecânica interpretativa nasce daí, embora se se fosse a verificar a pertinência das questões da “agenda”, e os resultados de alguns vaticínios veríamos que praticamente nada acerta, ou tem utilidade analiticamente.

É um jornalismo discursivo e narrativo, pouco metafórico (aí o Independente bate todos), bastante a-histórico e onde não cabem surpresas. Inclui algum psicologismo na interpretação das personagens, mas muito superficial e muito dominado por uma lógica lúdica de intriga e mexerico, que davam ao “produto” uma lógica popular de entretenimento.

Que estilo deixou Marcelo nos media, que depois lhe criou o caminho aberto para a presidência com a complacência e a cumplicidade de muitos dos jornalistas que ele tinha “formado” ou “enformado”? Baseava-se em várias coisas: uma obsessão com o calendário e a utilização do calendário – prazos, contextos temporais, etc.- para cenarização da vida política. Os cenários eram possibilidades hipotéticas de acção por parte de personagens da vida política, umas vezes baseados em truísmos, outros em provocações, destinadas a obter respostas dos provocados e a introduzir “picante” na vida política. Neste tipo de jornalismo, uma espécie primitiva de “fake news”, os chamados “factos políticos” criados por Marcelo tinham um papel.

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NB- Deixo apenas estes primeiros paragrafos, mas todo este artigo de Pacheco Pereira,
merece ser lido atentamente.

01 setembro 2017

Hoje há pintura...

Edgar Degas
1834 -1917

impressionismo
.
Cenas de praia (1869-1870)
in. National Gallery 

31 agosto 2017

Parabéns!... 31 de Agosto

O Gonçalinho faz hoje 4 anos
Um abração do bisavô.
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Gonçalo Constantino Veloso

30 agosto 2017

São quadras, meu bem!... São quadras...

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Desfolhaste o malmequer
A perguntar s'eu te queria.
Fizeste mal, oh mulher,
O malmequer não sabia.

29 agosto 2017

Parabéns!... 29 de Agosto

A Teresa Loução faz anos hoje...
Parabéns!... E um bonito dia de aniversário.

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Maria Teresa Jorge Loução

28 agosto 2017

Escrito no vento...

"Nunca se é velho demais para ter um novo objectivo ou para sonhar um novo sonho."
.
C.S.Lewis

27 agosto 2017

Setubalense - 1970 - Novembro...

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02 Novembro
Finalmente Setúbal vai ter sinalização luminosa
…No entroncamento da Avenida Alexandre Herculano e Mariano Coelho, podem ver-se já colocados os respectivos semáforos. Mas outros vão surgir!
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04 Novembro
Na página “Tribuna feminina” coordenada por Mónica, na coluna "Antologia poética” figura António Gedeão e o seu poema “Calçada de Carriche”.
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07 Novembro
Um poema de Luís Tibúrcio denominado “Embriaguêz”
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09 Novembro
Dr. Vitor Gonçalves
Tomou hoje posse como professor assistente da Faculdade de Letras de Sá da Bandeira, onde regerá as cadeiras de Pré-História e Antiguidade Oriental.
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09 Novembro
Faleceu o Dr. João de Castro Osório e Oliveira.
Era filho de Ana de Castro Osório e do Poeta Paulino de Oliveira.
Nasceu em 17 de Janeiro de 1899.  
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11 Novembro
Faleceu anteontem o General De Gaule.
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11 Novembro
O Dr. Joaquim Advirta foi aprovado no concurso para provimento dos lugares de primeiro verificador do quadro técnico aduaneiro.
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14 Novembro
Exposição de pintura e Escultura, na Igreja de NªSrª do Cabo.
Foi inaugurada pelo Dr. César Moreira Batista, Secretário de Estado de Informação e Turismo, no Museu de Setúbal.
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14 Novembro
Os Jogos Juvenis de Setúbal vão ser uma realidade.
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16 Novembro
Finalmente vai haver teatro na rua!!
Entrevista com Odete Santos
“ O Teatro é, acima de tudo, um meio de civilização.”
Numa entrevista como Vice Presidente das Câmara de Setúbal, Dr.João José Mendes de Matos disse: “Há muito que a Câmara tinha esta ideia em mente”
.
21 Novembro
No passado dia 17, o Sr.Prof.Adriano Moreira afirmou no Clube Setubalense que “O género humano constitui uma unidade… todo ele com direito igual à busca de felicidade.”
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21 Novembro
O Sr.Coronel Amilcar Augusto Lopes Chaves é o novo Comandante do RI 11.
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23 Novembro
Serviços de limpeza da CMS
Foi submetida a experiência, nas ruas da nossa cidade, uma unidade motorizada para limpeza e um camião automático para a recolha de lixo.
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25 Novembro
O Sr. Conselheiro, Dr. Miguel Bastos é presidente do Conselho Fiscal dos Correios e Telecomunicações.
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25 Novembro
Escola Técnica
O Sr. Eng. Tomás Roque está na Direção da Escola Técnica de Setúbal.
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25 Novembro
O Sr. Dr. Peres Claro voltou do Ultramar, para vir tomar parte nos trabalhos da nova sessão da Assembleia Nacional.
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28 Novembro
Drª Ivone Cabrita
Na Universidade de Lisboa concluiu o Curso de Ciências Filosóficas, a Sr.ª Drª Ivone Cabrita, funcionária da Câmara Municipal de Setúbal.
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30 Novembro
Setubalense ferido num desastre com o seu automóvel.
Na sexta -feira, próximo de Alcochete, o sr. Jorge António Costa Mendes, ao tentar ultrapassar duas outras viaturas derrapou e…
.
30 Novembro

A Câmara celebrou contrato com o sr.Arq. Rodrigues de Lima, para a elaboração do projeto de construção do Palácio da Justiça.

26 agosto 2017

Presença serena...

num poema que 
Luis Vaz de Camões 
dedicou à escrava Bárbara
.
Luis de Camões

Endechas a Bárbara escrava
.
Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que para meus olhos
Fosse mais formosa.
.
Nem no campo flores, 
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.
.
Uma graça viva,
Que neles lhe mora,
Para ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.
.
Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.
.
Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela enfim descansa
Toda a minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo,
E, pois nela vivo,
É força que viva.
.
In." O amor na poesia portuguesa"
uma Antologia organizada por Viale Moutinho
Editado em Abril 1975

25 agosto 2017

Eles foram professores do Liceu...

Cândido Augusto de Melo
.
Entrou no Liceu de Setúbal no ano lectivo de 1925/26 com posse conferida no dia 30 de Julho de 1925. Veio transferido do Liceu Fernando de Magalhães, em Chaves.
Foi professor efectivo do 1ºGrupo (Português, Latim e Grego) e encontram-se registos em seu nome até ao ano lectivo de 1932/33.

Em 2 de Julho de 1926 o “Exmº Sr. Cândido Augusto de Melo, como Director de Classe mais antigo” confere a posse ao futuro Reitor José Guerreiro Murta.

24 agosto 2017

Parabéns!... 24 de Agosto.

O Flórido faz anos hoje!...
Vai um abraço grande e Amigo.

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José Flórido de Castro e Silva

23 agosto 2017

São quadras, meu bem...São quadras!...

.
Sonho contigo num sonho,
Em que desperto a teu lado...
Sonho no sonho que ponho
O teu corpo alvoroçado!...

22 agosto 2017

Escrito na pedra...

in."Público"
04.08.2017

"Quando se critica, estamos a julgar. Se julgarmos, já não compreendemos, porque julgar implica condenar ou absolver."
.
António Lobo Antunes
1942 - 

21 agosto 2017

A Cruz de Santo André...

Santo André e S.Francisco
El Greco
1541-1614


Santo André e S.Francisco
in "Museu do Prado"

20 agosto 2017

Escrito no vento...

Livros são os mais constantes amigos, os mais acessíveis e sábios conselheiros e os mais pacientes professores.
.
Charles W. Elliot

19 agosto 2017

Hoje há pintura...

Doménikos Theotokópoulos 
El Greco 
1541 - 1614
.
São Luis e o pagem

18 agosto 2017

Eles foram professores do Liceu...

Armando Pereira Athayde de Medeiros
.
Foi professor provisório do 8ºGrupo (Matemática) e tomou posse pela primeira vez, em 9 de Setembro de 1925. Esteve mais dois anos ligado ao Liceu e, muitos anos mais tarde veio a ser Director da Escola Industrial e Comercial da cidade. Conheci-o em 1960, já como Director da EICS.
.

Eng.Armando de Medeiros
em 1938

17 agosto 2017

Humor antigo...

...com o traço de 
Carrillo

- O meu marido afirma que eu não sei guardar um segredo e, no entanto, ele ainda não sabe a minha verdadeira idade...

16 agosto 2017

A conta corrente...

in. "Farpas"
tomo XII
.
"A nobreza e os mendigos - Conta corrente."
.
Ramalho Ortigão esreveu esta pequena crítica
em
Setembro, 1871.
.
Ramalho Ortigão
.
"O acontecimento elegante deste mês foi uma tourada de Sintra, dada pela mocidade fidalga em benefício dos pobres daquela vila. O gado era bravo e os lidadores destemidos. Assistiu el-rei e a corte.
Esteve também o principe Humberto expressivo tipo de homem, em cujo olhar se revela a combinação internacional do mistério italiano e do spleen inglês. Sua Alteza tinha a expressão simpática, posto que talvez demasiado à moda, de quem se não considera o homem mais feliz do mundo. Dizia-se com louvor que o herdeiro da coroa italiana detestava todas as ostentações principescas -- o que veio a confirmar-se mais tarde quado se soube que Sua Alteza Real gratificara cada um dos remadores da galeota que o conduziu a bordo do seu navio, com a soma de 190 reis, mostrando assim não querer que o tenham por mais do que um pobre cidadão dotado de todas as virtudes de um cidadão pobre. Honra lhe seja!
Alguns dias depois da festa os periódicos publicaram os resultados financeiros dela, em uma conta concebida pouco mais ou menos nos seguintes termos:
.
Conta da nobreza com os mendigos de Sintra
Produto do espectáculo......................................1.082,440
Despesa feita ....................................................945,980
Deve a nobreza aos mendigos...............................   136,460
.
Alguns periódicos, ao mencionarem este saldo, exclamaram:
- Apenas!
Não nos parece que em tal caso tenha essa palavra da imprensa um perfeito cabimento. Suponhamos nós que a concorrência dos espectadores tinha sido de ametade do que foi, a conta, variaria logo da maneira seguinte:
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Conta dos mendigos de Sintra com a nobreza
Produto do espectáculo......................................   541,220
Despesa feita ................................................... 945,980
Devem os os mendigos à nobreza............................  404,760
.
...Ora, só neste caso é que os periódicos se deveriam permitir a liberdade de principiar a dizer:
- Apenas!"
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Já lá vão 146 anos, e "as coisas" não mudaram muito...
Continuamos a verficar que, depois das "festas" organizadas por uns quantos nobres"são sempre os mendigos que devem à nobreza". 

15 agosto 2017

Escrito na pedra...

in."Público"
14.08.2017

"Os lugares mais quentes do inferno estão reservados para aqueles que, em tempo de grande crise moral, optam pela neutralidade."
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John F. Kennedy
1917 - 1963
Presidente dos EUA

14 agosto 2017

Parabéns!... 14 de Agosto

A Fátima faz anos hoje.
Beijinhos e um bom dia de aniversário.
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Dr.ª Maria de Fátima Paula Barros

13 agosto 2017

No Liceu de Castelo Branco...

... em 1932, eram estes os Professores
que ali leccionavam... 
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Uns anos mais tarde, a partir de 1945, alguns ainda ali permaneciam...  e oito chegaram a ser meus professores.
Deixo o trabalho de identificação para os meus amigos contemporâneos, no Curso Liceal...
Se necessitarem ajuda digam, s.f.f.

12 agosto 2017

Eles foram professores do Liceu...

José Guerreiro Murta
Foi professor efectivo do 2ºGrupo (Francês e Português) tendo tomado posse, por procuração passada em nome do seu colega Manuel Inácio Duarte, em 29 de Abril de 1922.
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José Guerreiro Murta
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Quatro anos mais tarde é nomeado Reitor e, como tal, toma posse em 26 de Fevereiro de 1926, com a assinatura do Secretário do Liceu, Arronches Junqueiro.
Alguns meses mais tarde, em 2 de Julho de 1926, toma de novo posse como Reitor do Liceu Central de Bocage, perante o Director de Classe mais antigo, o Exmº Sr. Cândido Augusto de Melo. 
Em 1955, foi condecorado com a Ordem de Benemerência. recusou cargos políticos, mas participou em Trabalhos da Junta Nacional de ducação.Pertenceu à Direcção dos Jardins-Escola João de Deus e da Casa do Algarve.Fez várias conferências em que o tema Algarve dominou.
Faleceu em Loulé, de onde era natural,em 1979.

11 agosto 2017

Humor antigo...

com o traço
de René Caillé

- Parece mentira mas é verdade! Depois de
a menina ter sido admitida na secção do senhor Diogo,não calcula como ele se tornou optimista!...

10 agosto 2017

Recordações...

Em 13 de Novembro de 1973
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          GI

Monfortinho

De 13 a 30 de Setembro de 1941, Miguel Torga “esteve a águas”, nas Termas de Monfortinho. Foi  lá que escreveu um texto, que eu acho muito curioso, em vésperas do seu regresso a Coimbra, no dia 29 de Setembro.
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Miguel Torga
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“Bem me queria ir embora destes ermos sem tocar na pessoa mágica de um velhote que encontrei aqui, e de quem desejava guardar secretamente a imagem luminosa para a ter comigo quando a alma caísse na escuridão da grande noite da outra vida. Mas eu sou um pobre artista com quantas desgraças a palavra anda carregada. Por isso não fui capaz de resistir. E lá vou mexer-lhe com as minhas mãos impuras.
É um sujeito baixo, magro, com cabelos brancos e voz suave. Anda como os sonâmbulos, e cumprimenta como quem saúda formigas ou palha-triga. É médico. 
- Vossa Excelência veio então dar um passeio até ao nosso Monfortinho!
- Um passeio, não é bem…  Para passeio é um bocadinho longe de mais…  Mas como parece que as águas dão qualquer coisa nas doenças hepáticas…
-Qualquer coisa?!
-Sim, dizem que na verdade… De resto eu não tenho a certeza de ser um hepático.  Presumo…
- Presume?! O senhor, um temperamento seco, hiposténico?!
Parei. Seria outra vez o Hipócrates cá neste mundo?
- É que numa dosagem que fiz da bilirrubina, o fígado…
- Diga o chefe da banda… diga o chefe da banda…
- O chefe da banda?!
- O chefe. Temos depois os músicos: o pâncreas,  o baço… Ora o senhor sabe por experiência que quando o chefe da banda não rege bem…
- Na verdade…
- Vai-se a música às violas.
Olhei-o fixamente a ver se uma areia de ironia quebrava o polido de  tão estranha candura. Nada. Puros, sérios, os seus lábios iam rezando a ladainha. Enterneci-me.
- E então Vossa Excelência aconselha-me …?
- Pomada de unha, senhor, pomada de unha.
- Pomada de unha?!
- Ah! Não sabe?! Desconhece que o sabão, derretido na água, se a pele está como deve estar, em carne viva, com os poros desobstruídos, entra imediatamente nos canais biliares e faz uma lavagem completa das células engorduradas…?!
- Sim?!!
- Pois! Umas águas  maravilhosas, estas! Pomada de unha, senhor, pomada de unha!
Não era um homem que estava na minha frente. Era uma alma branca, a olhar-me e a transcender a realidade através de mim.
- E dieta? – tentou ainda o meu corpo vivo.
-Tudo. Pode comer tudo.
Numa defesa intuitiva, lamentei-me:
- Mas é que os meus intestinos…
- Os intestinos, desde que o chefe da banda…
Os olhos dele eram agora altos, azuis e distantes como o céu para onde lhe partira em tempos uma filha. E eu, então, despedi-me discretamente, sem o acordar, a ver se trazia dali uma centelha daquela luz mágica e puríssima, para um dia ter comigo na eternidade.
Trouxe-a realmente, mas por desgraça, não a pude guardar.”
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Miguel Torga
In.”Diário II”