21 setembro 2017

E aqui vamos agora...

Miguel Torga escreveu este poema 
em 16 de Maio de 1940. Estava em Coimbra e
deu-lhe o nome de "Nocturno" .
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Miguel Torga
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Nocturno
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Quatro da madrugada.
Vivos,
sob o arco do céu,
eu
e um cão tão magro como eu.
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Sem prévia combinação, sem nada,
tivemos um encontro nesta rua
a esta hora marcada
pelo aceno da lua.
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E aqui vamos agora,
num amor vagabundo
de quem não se conhece e se namora,
a encher os dois sozinhos este mundo.
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Miguel Torga
in."Diário I"

20 setembro 2017

Humor antigo...

in. "O Mundo ri",
de Dezembro/63
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- Se ele te convidar para ires a sua casa ver uma colecção 
de estampas japonesas desconfia: é verdade...

19 setembro 2017

Escrito na pedra...

in."Público"
02.09.2017

"Afirma com energia o disparate que quiseres e acabarás por encontrar quem acredite em ti."
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Vergílio Ferreira
1916 - 1996
escritor

18 setembro 2017

A imbecilidade da praxe...

...e necessidade de quarentena dos seus praticantes.
É o título, comprido, do Espaço Público que
José Pacheco Pereira mantem aos sábados,
no jornal Público.
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José Pacheco Pereira
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JPP começa por colocar em destaque, alguns mimos que foi buscar ao "Manual de Sobrevivência do Caloiro": "O caloiro é incondicionalmente servil, obediente e resignado"; "não é um ser racional"; "Não goza de qualquer direito." 
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(...)
Há momentos em que se percebe muito bem por que razão este país não anda para a frente e um desses momentos é quando se traz para as ruas o espectáculo da praxe. As universidades, salvo raras e honrosas excepções, não a proíbem dentro das suas instalações, e, quando a escorraçam para os espaços públicos, as autarquias deviam tratá-las como um problema de saúde pública que exige uma forma qualquer de quarentena. Não o fazem. É por isso que não andamos para a frente.

As autarquias permitem que milhares de cidadãos sejam insultados pelo espectáculo da imbecilidade colectiva que se passa nos jardins e nas ruas. Aliás, o que se passa não é diferente do pastoreio das claques de futebol pela polícia de choque, em que um exército excitado e violento ameaça entrar em guerra com o exército do lado. Os espaços públicos pertencem ao público, a todos nós, não podem ser apropriados por actividades violentas e as praxes são um espectáculo de violência da estupidez. E a estupidez até pode matar, mas, mesmo que não mate, magoa a cabeça, o pensamento, a razão, a decência e boa educação. É por isso que não andamos para a frente.

Em muitos sítios não se pode fumar, ter atitudes “indecentes”, provocar os outros passeantes, mas, se forem os meninos e meninas da praxe, está tudo bem.

Mas não está. Se se quer permitir as praxes — o que para mim está bem fora das escolas e das ruas —, ao menos que se proceda com medidas de sanidade pública, como seja atribuir-lhes uns locais vedados, cercados por altos muros, os curros das praças de touros, ou os lotes vazios da selva urbana, os sítios poluídos onde ninguém quer ir, os matadouros abandonados, as fábricas em ruínas, aqueles cenários dos filmes de terror. Aí, se quiserem, podem dedicar-se a rastejar pelo chão, a lamber coisas inomináveis, a fazerem genuflexões “servis” como mandam os manuais da praxe. É por isso que não andamos para a frente.
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Quem tem também muitas responsabilidades são os paizinhos e as mãezinhas dos dois lados da praxe, os que mandam e os seus servos, certamente também porque muitos deles andaram já nessas andanças e pelos vistos gostaram. Claro, quando as coisas correm mal, e já correram muito mal, então protestam, mas já é tarde de mais. Eu sei bem que muitos dos praxados e praxantes já são jovens adultos, sem estarem sujeitos à autoridade paternal, mas presumo que continuam a viver com as mamãs, e à custa dos progenitores, pelo que leverage existe — mas, como tudo neste infeliz país destes dias, não é exercido. Não é exercido pelas autoridades académicas que, quando muito, olham para o lado para não verem o nojo de tão baixa função em tão alta universitas, cheia de dignidade latina e de indignidade humana. É por isso que não andamos para a frente.

Não há nada de bom nas praxes, por muito que haja uma escola de sociólogos e antropólogos que aceitam sempre justificar tudo com o fabuloso argumento dos ritos de passagem e da “integração”. Mas, em bom rigor, o que é que distingue estas exibições de autoridade do segundo ano sobre os caloiros do consentimento social da violência doméstica? E afirmam que estas brincadeiras imbecis ajudam os meninos e meninas a “integrarem-se” nas universidades. Estou mesmo a ver os praxados a correrem para os livros no dia seguinte ao fim das semanas da praxe, já muito “integrados” em todas as virtudes dos altos estudos. É por isso que não andamos para a frente.

Tenho muita honra em ter toda a vida combatido estas imbecilidades socialmente perigosas, algumas vezes de forma, digamos, mais consequente. Não conto desistir e talvez assim assegure um lugar no paraíso e possa ver, da minha branca nuvem, as actividades dos diabos. Porque de uma coisa eu tenho a certeza — para entrar no Inferno há praxes, para “integrar” os malditos no exercício da autoridade diabólica, humilhando-os fazendo-os rebolar na lama sulfurosa do Inferno. Boa praxe!

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No "Público"
em 16.09.2017 

16 setembro 2017

As licenciaturas honoris causa...

Hoje, dia 16 de Setembro
na página de
João Miguel Tavares 
in Público...
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João Miguel Tavares
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Apenas alguns excertos:
"Os doutoramentos honoris causa existem em todo o mundo. As licenciaturas honoris causa só existem em Portugal. Depois de José Sócrates, depois de Armando Vara, depois de Miguel Relvas, eis que chegou a vez de o comandante nacional da Protecção Civil ser apanhado na posse de uma licenciatura de abrir o pacote e juntar água. Rui Esteves já se demitiu, para infelicidade do próprio e felicidade do Governo, que queria correr com ele depois do desastre de Pedrógão.É uma ironia portuguesa: em vez de ter sido demitido pelos erros cometidos a fazer o seu trabalho, demitiu-se por causa dos erros cometidos a fazer a licenciatura de que precisava para trabalhar.
Há duas dimensões diferentes neste problema, ambas lamentáveis. A primeira é a trafulhice académica. Durante muitos anos, o espírito Novas Oportunidades andou à solta pelo país, e tirar uma licenciatura tornou-se mais fácil do que tirar a carta de condução. Desde que o aluno tivesse "conhecimentos", bastava-lhe assistir a duas aulas, pedir três dúzias de equivalências com base na "experiência profissilonal", fazer uma oral distendida com um professor amigo, entregar um par de projectos ", e já estava. O trabalho intelectual era substituido pelo trabalho administrativo. Foi assim que estabelecimentos manhoso andaram a ganhar a vida durante anos a fio, aproveitando a expansão do ensino superior para expandir as fronteiras da cunha, essa grandiosa especialidade nacional.
Só há uma outra especialidade nacional, e não menos grandiosa -- a parolice do canudo e a necessidade de todos sermos doutores, mesmo em áreas em que a experiência no terreno é infinitamente mais importante do que o cálculo integral ou as curvas de titulação.
(...)
Tristemente, a lei portuguesa passou a exigir, no domínio da protecção civil, que as dezenas de comandantes operacionais do país  possuissem uma licenciatura. Notem: não uma licenciatura em Protecção Civil, que garantisse o profissionalismo de uma área fundamental de intervenção do Estado- uma licenciatura qualquer.
Vale a pena citar o primeiro ponto  do Artigo 22 do Decreto-Lei 73/2013 (sucessor de uma le mais antiga, que estabelecia uma transição de dez anos nesta área), àcerca as regras de recrutamento para a Protecção Civil: "O recrutamento do Comandante operacional nacional e do segundo comandante operacional nacional, dos adjuntos operacionais nacionais, dos comandantes operacionais de distritais é feito de entre indivíduos que possuam licenciatura e experiência funcional adequadas ao exercício daquelas funções.
Mesmo com "experiência funcional" , o resultado é óbvio: um licenciado em Estudos Asiáticos com três meses a segurar uma mangueira pode ser comandante da Protecção Civil; um não-licenciado com décadas de experiência não pode.
(...)
O licenciado Rui Esteves--nova ironia-- foi um dos principais responsáveis por esse trabalho. Tal como no totoloto, a culpa merece uma tripla : é de Rui Esteves, é do Politécnico de Castelo Branco, que lhe concedeu a licenciatura; e é também  de um Estado que estimula a falcatrua através de leis insensatas.

Hoje há pintura...

Rembrandt
pintor holandês
1606-1669
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Artemísia
in. Museu do Prado

15 setembro 2017

Parabéns!... 15 de Setembro...

Nasceu em 15 de Setembro de 1765...
Faz hoje 252 anos
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Manuel Maria Barbosa du Bocage

14 setembro 2017

Libertadores...

...foi o título escolhido por Faíza Hayat
para este conto que publicou em Março de 2008
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Faíza Haiat

Libertadores

Tive, um dia, uma discussão violenta com um amigo africano a propósito de libertadores. Ele nomeou a geração da libertação e eu emendei para geração da traição.


Foi nesse ponto que nos zangámos, porque ele, tendo alinhado na trincheira dos libertadores, não admitiu “insultos de quem nunca teve de pagar para ser livre”.


Referia-se a mim e eu também achei que não era bem a prateleira onde queria estar.

A zanga entre nós durou uns tempos. Depois, apareceu na minha caixa de correio uma carta. Entre muitas reflexões, continha citações de um herói da libertação africana sobre a maior ameaça ao sucesso da luta: a traição.

Dizia esse libertador sobre a gente que fermenta à volta dos lideres: “O que é que eles querem ao fim e ao cabo? Querem casas bonitas, calças e fatos de tergal luzidios, joias por todos os lados, roupas das mais esquisitas, ter quantas mulheres querem quando se trata de homens, fazer o que bem entendem quando se trata de mulheres. Ambição profunda, camaradas. Compreensível até um certo ponto, mas tremendamente medonho a partir de um certo ponto também. Compreensível porque nós, africanos, nunca tivemos nada e, quando o caminho se abre para termos coisas, queremos ter tudo num dia só. E então, para ter tudo num só dia, traímos. Ambição e mais ambição.”

Nota do meu amigo sobre esta passagem: “Onde se lê ‘africanos’ podes pôr ‘oprimidos’ de qualquer parte. Romantismos à parte, não é que a revolução não seja um convite para jantar. Não é, claro. Mais: a única revolução é ir dormir sem ceia.


Escrevi uma carta de resposta que, a bem dessa amizade, nunca pus no correio. Encontrei-o há tempos, numa mudança de casa. Dizia-lhe eu: “Os libertadores por quem tu continuas a lutar não chegaram a sentar-se à mesa. Os que se sentaram foi para mandar nas migalhas.

O Zimbadwe foi a votos. Do que conheço de Robert Mugabe, um farol da libertação africana, é que é um velho sociopata que assegurou o poder à custa do sangue (incluindo o do seu próprio irmão, como é voz corrente entre os zimbabweanos) e que, na última década, usou as estruturas do partido para desmantelar o melhor país entre o Cairo e o Cabo.

É infindável, e penosa, a lista de outros libertadores, por todo o mundo, que nas últimas décadas do século XX deram contribuições idênticas à infelicidade dos seus povos.

Os portugueses, por proximidade cronológica, deviam ser mais realistas, ou mais cautelosos, com a geração da traição. Pelo contrário, acredito que somos a sociedade (pos-) colonial que, na Europa, mais dificuldade tem em descolar dos mitos e das mentiras dos heróis da “libertação”. E que, por isso, continuam viciados na legitimação de ditaduras, totalitarismos, guerras civis e esquemas de pilhagem e humilhação.

O que esquecemos, ainda hoje, é um dado empírico triste: dentro de um movimento de “libertação”, os que assistem à hora da vitória são, por regra, os piores daqueles que fizeram parte da luta.

É essa a biologia, embora não a genética, de muitos movimentos: do MPLA e da UNITA ao PAIGC, à Frelimo (a Renamo, pela sua génese, nem conta nesta prateleira), ao ANC, à ZANU-PF, aos “mujahedines” afegãos ou ao UCK albanês.

O que esquecemos, infelizmente, é que as vitórias não se obtêm pela bondade da causa, mas pela persistência da astúcia. A poesia conta bastante menos que a máquina. E são os homens da máquina que, no momento da independência, tomam normalmente as rédeas do projecto nacional.

Os outros, os autênticos libertadores, ficaram pelo caminho, engolidos de alguma maneira pela lógica ou a conivência da máquina. Como Amílcar Cabral ou Eduardo Mondlane ou Viriato da Cruz. Nós, portugueses, devíamos saber melhor…

“A meu ver, nunca é demasiado confiar nos homem, mas chega um momento em que é preciso parar. Quando começamos a ver que já está a ir demasiado longe”, citava o meu amigo desavindo na carta de reconciliação.

Esta, como as outras, eram frases de Amílcar Cabral aos quadros do PAIGC, em 1971.

“Não há ninguém que não acredite em Deus que não o tenha enganado ainda”, explicou também Cabral aos traidores que o rodeavam e que continuam, hoje, a comer as entranhas da sua nação. Os “libertadores” no activo são, em geral, os parasitas do sonho colectivo de libertação—como na Libéria do século XIX ou no Timor-Leste do século XXI.

Cabral, claro, era um timoneiro com moral. Por isso ia morrer – e deu-se ao trabalho de explicar por quê.

13 setembro 2017

Humor antigo...

...com o traço de 
Ward

- Arnaldo, sinto-me tão romântica!... Importas-te de ir lá dentro 
e dizer ao Xico para vir ter comigo?**

12 setembro 2017

Escrito no vento...

"A independência tem um preço! Sempre o soube e nunca me recusei pagá-lo."
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Eugénio de Andrade

11 setembro 2017

São quadras, meu bem... São quadras!...

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Sê benvindo nesta casa
Se és deveras meu amigo!
Entra, abraça-me, descansa,
Senta-te à mesa comigo.

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Eugénio de Castro

10 setembro 2017

08 setembro 2017

Parabéns!... 8 de Setembro

A Alexandra faz anos hoje!!
Beijinhos e um bom dia de aniversário...
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Alexandra Kolontai Fernandes Ferreira Godinho

07 setembro 2017

Os novos censores..

in. "Observador"
em 02.09.2017
escrito por 
Alberto Gonçalves
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Alberto Gonçalves
(sociólogo e colunista)
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"A que título, em Portugal, os novos censores ignoram as inúmeras “discriminações” em Defoe ou Eliot, Twain ou Nabokov? Sensatos, os meus botões responderam: porque os novos censores nunca leram nada assim, e se leram não perceberam."

06 setembro 2017

Escrito no vento...

in."Público"
27.08.2017

"É um emprego como outro qualquer. A erva cresce, as aves voam, as ondas batem na areia. Eu bato em pessoas."
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Muhammed Ali
1942-2016
boxeur

04 setembro 2017

Humor antigo...

com o traço de
Bernard Augesert

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Sem palavras...

03 setembro 2017

Eles foram professores do Liceu...

Mário Caes Esteves
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Nasceu em Lisboa, S.Sabastião da Pedreira, em 13 de Setembro de 1898 e faleceu no Terreiro do Paço, em Lisboa, no Ministério do Interior.
Foi professor provisório do 4ºGrupo (História e Filosofia) durante dois anos. A sua primeira posse sucedeu em 29 de Março de 1927, no ano lectivo de 1926/27. No seu segundo ano lectivo assinou o auto de posse no dia 15 de Outubro de 1927.
Mário Caes Esteves tinha sido aluno do Liceu havendo registo da sua frequência escolar relativamente ao ano lectivo de 1911/12, na 1ªTurma do 4ºAno.
Mais tarde foi Presidente da Câmara de Setúbal, foi Governador Civil do Distrito e acabou como Secretário Geral do Ministério do Interior.

02 setembro 2017

Marcelo e Trump...

No "Público", escreve hoje o jornalista
José Pacheco Pereira
na sua coluna de sábado
"Espaço Público"

José Pacheco Pereira

A mera junção destes dois nomes parece insultuosa, tanto mais que são duas personagens muito distintas e que detestariam em se verem reunidos num mesmo título. Na verdade, Marcelo tem pouco a ver com Trump e vice-versa. Marcelo é um político sofisticado, culto, elegante, educado, honesto e Trump é uma personagem grosseira, ignorante, brutal, corrupta e corruptora e ameaçadora. Acima de tudo, Marcelo é um político democrata e Trump é um autocrata, a diferença mais substancial. Porém uma coisa que têm em comum: é o facto de ambos terem chegado ao poder através de uma contínua utilização do sistema mediático moderno, com criatividade e intuição, moldando o universo dos media aos seus interesses pessoais e políticos. E aqui pode-se fazer uma comparação entre ambos, e percebendo-os, perceber algumas das características da política em democracia, em particular a sua ligação/sujeição aos mecanismos mediáticos.Nessa comparação, Trump aliás tem vantagem porque, mais do que Marcelo, combinou a manipulação sistemática dos media, com a expressão de interesses sociais de grupos de americanos que se sentiam excluídos da representação política, enquanto Marcelo depende, no seu sucesso, da manutenção de uma conjuntura simbólica de apaziguamento que lhe é favorável enquanto houver estabilidade política. Por isso, Trump, para além do que trouxe de novo à relação da política e dos media num contexto populista, criou um ponto sem retorno, e é um revolucionário. Já Marcelo não pode ainda definir a sua presidência como um tempo sem retorno, podendo ser aliás um momento de transição e passagem. Na verdade, o que é novo no tempo de Marcelo não é a “política dos afectos”, é a “geringonça”, e esta não é de sua autoria.
Trump e Marcelo são políticos muito intuitivos e inventivos e perceberam como é possível usar os media modernos, do jornalismo às “redes sociais” que não são jornalismo. O caso de Marcelo é exemplar no jornalismo e na comunicação pós-.25 de Abril. À data do 25 de Abril não havia qualquer experiência de jornalismo em democracia, pesem embora os esforços de várias gerações de jornalistas, em particular a gerada nos anos sessenta, para oferecerem uma alternativa quer ao proselitismo dos propagandistas do Estado Novo, quer ao silêncio demasiado longo da Censura. Mas isso não é uma plena experiência de jornalismo em democracia, o que explica que na euforia da liberdade, a maioria destes jornalistas, que vinha da oposição política e estudantil, gerassem um jornalismo militante de esquerda, que acompanhou os ciclos políticos do PREC até à “normalização” democrática. Com uma excepção, o Expresso com Marcelo Rebelo de Sousa.
No Expresso, Marcelo inicia uma escola de jornalismo que foi a primeira típica da nossa democracia, e que veio mais tarde a trazer para a rádio e para a televisão. Ele foi o mestre, mas os seus discípulos ainda hoje usam a “gramática” e o “léxico” do estilo de jornalismo que ele criou. Usam a forma de pensar de Marcelo e o seu vocabulário, naquilo a que chamam “jornalismo político”, mas estão muito longe da mestria de Marcelo. Os artigos de opinião, as perguntas em entrevistas, a lógica dos títulos, a enunciação dos “problemas”, os “destaques”, toda a mecânica interpretativa nasce daí, embora se se fosse a verificar a pertinência das questões da “agenda”, e os resultados de alguns vaticínios veríamos que praticamente nada acerta, ou tem utilidade analiticamente.

É um jornalismo discursivo e narrativo, pouco metafórico (aí o Independente bate todos), bastante a-histórico e onde não cabem surpresas. Inclui algum psicologismo na interpretação das personagens, mas muito superficial e muito dominado por uma lógica lúdica de intriga e mexerico, que davam ao “produto” uma lógica popular de entretenimento.

Que estilo deixou Marcelo nos media, que depois lhe criou o caminho aberto para a presidência com a complacência e a cumplicidade de muitos dos jornalistas que ele tinha “formado” ou “enformado”? Baseava-se em várias coisas: uma obsessão com o calendário e a utilização do calendário – prazos, contextos temporais, etc.- para cenarização da vida política. Os cenários eram possibilidades hipotéticas de acção por parte de personagens da vida política, umas vezes baseados em truísmos, outros em provocações, destinadas a obter respostas dos provocados e a introduzir “picante” na vida política. Neste tipo de jornalismo, uma espécie primitiva de “fake news”, os chamados “factos políticos” criados por Marcelo tinham um papel.

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NB- Deixo apenas estes primeiros paragrafos, mas todo este artigo de Pacheco Pereira,
merece ser lido atentamente.

01 setembro 2017

Hoje há pintura...

Edgar Degas
1834 -1917

impressionismo
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Cenas de praia (1869-1870)
in. National Gallery