20 abril 2007

Poema de António Lobo Antunes

A GRIPE E OS HOMENS ...

Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisanas e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.


                                                 António Lobo Antunes


Nascido em Lisboa, em 1 de Setembro de 1942. é licenciado em Medicina com especialização em Psiquiatria. 
Esteve destacado em Angola, entre1970 e 1973, durante a fase final da guerra colonial portuguesa. A sua experiência de guerra inspirou muitos dos seus livros. Quando regressou a Portugal, trabalhou no hospital psiquiátrico Miguel Bombarda.
Actualmente vive em Lisboa, mas já não exerce medicina, dedicando-se em exclusivo à escrita.
Em 2007, é-lhe atribuído o Prémio Camões, o mais importante galardão literário de Língua Portuguesa.

4 comentários:

lânternamágica disse...

ele é um génio vivo e muito pouco amado por muitos ; mas o mais terrivel, para ele decerto, é o não o compreenderem e ele se irrita, deveras, com isso. bem escolhido o seu poema aqui. ja o estou a seguir.

rouxinol de Bernardim disse...

Admiro este poeta e romancista que burila a palavra com a mestria de uma rendilheira, de um escultor, mas por vezes excede-se. Para o bem e para o mal...
Aquele comentário sobre a guerra colonial, onde afirmava que se matavam velhos e crianças só para ganhar posição para uma situação menos perigosa, num posto menos avançado, foi infeliz.
Nem como metáfora se pode aceitar.
Massacres houve-os, como o de Wiryamu (Moçambique), contudo foram apenas excepções a uma regra ...
Também lá estive, fui acusado de um crime terrível: «prática de voo em ambiente não vislumbrado...»
Nunca soube o que isto era. Mas toda a vida fui perseguido por isto: havia interpretações ao sabor de cada um...
Ainda hoje jaz no EMGFA o meu pedido de inquérito aos factos que estarão por trás deste diagnóstico!!!

as-nunes disse...

Sou um fã de ALA

Não conhecia este poema!
Só Lobo Antunes!...
Hiperbólico, talvez, como diz um amigo aqui da blogosfera! E eu até me sinto inclinado a concordar com ele!

Mas António Lobo Antunes é um escritor fora de série, sem dúvida.

GUGU disse...

Lobo Antunes é um nefelibata inato e a forma introspetiva com que aflora quase todo o tipo de temas faz com que a sua escrita ganhe asas de águia em voos rasantes sobre altas montanhas: se o céu é o limite, há muito que ultrapassou a exosfera. A sua escrita é como que a linguagem no seu estado mais puro, a linguagem do pensamento...mas há um problema, é que nas camadas exteriores o ar é mais rarefeito e a dificuldade em respirar é tão fremente que corre o risco de não ser compreendido.