28 abril 2012

Maria Filomena Mónica...

... em entrevista ao i:
"Sócrates foi um delinquente político.
O pior exemplo que foi dado ao país"

Maria Filomena Mónica

Numa grande entrevista, conduzida por Nelson Pereira, podemos entrar no pensamento desta "filha rebelde" que continua a ser igual a si própria...

Deixo aqui apenas alguns destaques, respigados de um texto que é bastante longo:

"Franca, sonhadora, exigente com Portugal. Considera que a Europa e a liberdade foi o melhor que o 25 de Abril nos deu. Uma coisa assusta hoje Filomena Mónica: o regresso da pobreza."

- ...o que é que a incomoda ainda no Portugal que temos?
Horroriza-me a pobreza emergente, voltar a encontrar hoje a indigência nas ruas, famílias a passar fome. Nunca pensei que a pobreza da minha infância ressuscitasse e não sei como reagir. No Jardim da Estrela, um rapaz de uns 40 anos pediu-me esmola. Estava convencida, depois do 25 de Abril, que a situação económica evoluiria sempre para melhor e que o Estado social protegeria os mais fracos. Paguei sempre os impostos, mesmo quando me custava, na convicção de que os membros mais frágeis da sociedade a que pertenço nunca voltariam a cair na pobreza extrema. Quando já nos pensávamos europeus e acreditávamos que as pessoas tinham alcançado o bem-estar, que os velhos tinham assegurado um futuro digno até à morte, eis que regressa aquela pobreza ancestral.

- Como explica que continuemos assim, depois de tantos anos de democracia?

É preciso lembrarmos que o 25 de Abril foi um golpe de Estado, uma insurreição militar. Desde o século XIX até agora, em Portugal, os regimes foram sempre mudados por insurreições militares. Ora, a liberdade conquista-se. E nós nunca a conquistámos, foi sempre alguém que nos deu a liberdade.

(…) e em 1974 foi também uma revolta militar. Facto é que o povo não participou. E, ao não participar, torna-se um espectador alheado. Quando recebemos a liberdade dada e não temos de a conquistar, não a tratamos como nossa.

- Como avaliaria a evolução política nestes 38 anos?
Politica e culturalmente, as coisas não avançaram ao mesmo ritmo. A revolução deixou uma impressão digital má, ao gerar uma lei nefanda que ainda hoje nos obriga a votar, não em pessoas, mas em letras partidárias. E assim o parlamento, que é centro do sistema democrático, não funciona.
Não sei quem são aquelas pessoas no parlamento, não votei nelas. Deixei de votar no PS, porque prometeram fazer a reforma eleitoral e não fizeram. De resto, o PSD também prometeu. E lá vêm aquelas listas cozinhadas pelo secretário-geral, com os nomes dos servos mais obedientes da corte partidária. A parte política foi o que nestes anos mais falhou, pois era possível fazer uma reforma eleitoral, mesmo que se tivesse de mexer na Constituição.

- E do ponto de vista cultural?
Tem sido tudo muito lento. Se falo de Stendhal ou de Balzac, alguns alunos meus, que até são espertos e muito bons alunos, nunca ouviram falar, porque os avós são analfabetos e os pais não têm livros em casa. A evolução cultural leva tempo, é obra de duas ou três gerações. Falhámos a escola pública, que tem um papel fundamental, e isto afecta muito profundamente o país. Os meus filhos andavam numa escola pública, é através da escola pública que as gerações se podem tornar mais cultas, porque infelizmente os pais e avós não lhes podem dar o Verdi, não lhes podem explicar o que é a “Traviata”.

(...) - É na fase actual que estamos finalmente a tornar-nos um outro Portugal?
E ao mesmo tempo estamos numa Europa que avança para uma enormíssima crise. O Estado social não vai poder existir como até agora. As pessoas vão ter de se reformar mais tarde, vão ter reformas menores – eu perdi 30 a 40% do meu vencimento este ano. Não me queixo porque tenho vergonha de me queixar, as outras pessoas estão pior que eu. A verdade é que o Estado falhou o meu contrato, pois tinha garantido que eu descontaria todos os meses durante 40 anos e, como trabalho desde os 19 anos, já me podia ter reformado, mas continuo a trabalhar na universidade. O Serviço Nacional de Saúde não é mau – a minha mãe foi muitas vezes ao Hospital de S. José e foi sempre muito bem tratada.

- E o sistema de ensino?

É péssimo. O sistema de ensino deixou-se contagiar por uma ideologia pseudo--esquerdista que tentou fazer iguais todos os alunos, mas por baixo. A exigência não foi valorizada. Em 1974, a revolução apanhou-me a meio do doutoramento e pedi para ficar cá mais um ano, para poder participar. E estive a dar aulas, mas dois meses depois já não aguentava os alunos. Os estudantes diziam que não queriam notas, que eles é que faziam os curricula e que eu não mandava em ninguém. Respondi: “Óptimo, vou-me embora.” E não é só culpa da esquerda, pois a direita está penetrada das mesmas utopias pseudo-igualitárias.

(…) reflectem este banho cultural que considera que aos alunos, coitadinhos, não se lhes pode dar más notas, pois ficam com auto-estima negativa. Devemos dar aos filhos dos pobres as mesmas oportunidades que aos filhos dos ricos e não baixar os níveis de exigência para que toda a gente passe, como durante anos aconteceu

- Com a crise temos os primeiros sinais de um crescendo de emigração jovem qualificada. O país fica a perder ou a ganhar?

Pode ganhar (...) não houve uma selecção adequada, não houve a apreciação de um júri que percebesse que este ou aquele jovem nunca fará um doutoramento na vida – não por não ser inteligente, mas porque não tem pertinácia. E porque não há vigilância a FCT não pede aquilo que até a Gulbenkian pedia no meu tempo: que um supervisor escreva um relatório de três em três meses que diga se o jovem está a cumprir ou se anda só a passear. Houve um grande desperdício desses meios financeiros. Neste sentido, o país perdeu, pois escusava de ter gasto tanto dinheiro.

(...) - Como avalia o desempenho da oposição?
A oposição desapareceu. O PS não existe, nem sei o que é aquilo. O líder não tem carisma, não sabe o que há-de fazer, está condicionado pelo acordo com a troika. E sucede a um delinquente político chamado Sócrates, o pior exemplo que jamais, na História de Portugal, foi dado ao país: ir para Paris tirar um curso de “sciences po”, depois daquela malograda licenciatura – à qual não dou a menor importância, pois há muitos excelentes políticos que não são licenciados. O engenheiro Sócrates foi o pior que a política pode produzir. Depois de tantos processos em que mentiu, aldrabou, não depôs, ninguém percebeu o que se passou com o Freeport, os portugueses perguntam-se onde foi ele buscar dinheiro para estar em Paris. Quem é que lhe paga as despesas e o curso? A esquerda socialista tem ali este belo exemplar a viver no 16ème, e um sucessor que não inspira ninguém. O PCP vive num mundo antes da queda do Muro de Berlim, e o Bloco de Esquerda habita em Marte.

(...) - E que mais marcou a sua vida, para além de Oxford?
O que mais me moldou foram os livros. Sou muito solitária. Este ano mandei vir centenas de livros. Com a crise, para o ano já não vou poder comprar livros. A válvula de escape foi eu ter lido todo o Tolstoi e todo o Stendhal quando era ainda adolescente. Não tínhamos nada para fazer, em crianças – a minha mãe pegava em nós e punha-nos durante dois meses na aldeia. Como não nos deixava brincar com os meninos dali, só me restava ler. Quando vejo as crianças de hoje sempre ocupadas com jogos, consolas, etc., penso que este tipo de tédio que nós tínhamos faz muita falta às crianças.

(...)Em Oxford, num ambiente muito masculino, onde havia 80 homens e cinco mulheres, nunca senti nenhum assédio sexual, apesar de, como aluna, usar mini-saia.
- E em Portugal?
Com os meus colegas masculinos, percebi que eles iam para a cama com as alunas, e digo: “Vocês não estão bons da cabeça!” Diziam uns aos outros: “Aquela vai à cama?! Se soubesse, tinha-lhe dado melhor nota.” Isto assim, à minha frente! Eu dizia: “Esperem ao menos que elas acabem a licenciatura.” Mas os meus colegas achavam normalíssimo ir para a cama com as alunas. Em Portugal há a promiscuidade do sexo e a promiscuidade do parentesco.

- No seu ensaio “A Morte”, lembra que em Esparta o poder impunha a morte aos velhos e aos fracos. Não lhe parece arriscado colocar nas mãos dos fortes a decisão sobre a vida dos fracos?
Reconheço o risco que daí advém. As pessoas podem desejar a morte para não causarem peso aos familiares. E isso é mau, porque as pessoas têm direito de viver até ao fim dignamente e de serem bem cuidados. Cuidámos dos filhos quando eles eram pequeninos, eles também têm de cuidar de nós na velhice e na doença. Temos de resistir a essa pressão social que sugere que os velhos são supérfluos porque já não são população activa."

No i on line, em 28 de Abril de 2018

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