08 maio 2012

Natureza morta...

...um poema de António Gedeão.

António Gedeão


Natureza morta
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As bombas destruíram todas as casas menos uma,
as casas onde viviam os homens que não tinham cor nenhuma.
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Por entre os escombros
alguns milhões de cadáveres contavam anedotas e encolhiam os ombros.
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Quando já não havia mais homens para matar,
nem pedras por calcinar,
nem searas por destruir,
foi só então que as bombas cessaram de cair.
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Sobre a mesa vermelha
uma verde maçã e uma garrafa amarela e torta,
natureza morta.
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Felizmente as bombas destruíram todas as casa menos uma,
as casas em que viviam os homens que não tinham cor nenhuma.
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Aí, com perícia esmerada,
os sábios reconstituíram um corpo, tão perfeito como se fosse vivo
a casa, essa , foi reservada
para museu e arquivo.
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António Gedeão
In “Linhas de força” – 1967

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