11 outubro 2016

...ou como rebentar uma classe...

...num título escolhido por 
Ana Sá Lopes
no editorial de hoje, 11 de Outubro, no
Jornal i.

Ana Sá Lopes
.
Nunca conduzi. Serei, possivelmente, uma cliente razoável dos táxis de Lisboa. Não instalei a Uber, apesar de já ter beneficiado dos serviços. Continuo a ir para o meio da rua à espera que passe um táxi vazio. Sou uma testemunha de que a defesa de que era preciso que viesse um novo Salazar já está esbatida e hoje é mais um mito do que outra coisa – embora tenha sido verdade nos últimos 30 anos, a minha amostra privada sugere que a tendência caiu.

Por outro lado, aumentou (ou talvez disparou) o número de profissionais que não sabem o nome das ruas, onde ficam e muito menos se dispõem a ligar o GPS, uma coisa que não havia há 30 anos. Resultados da amostra privada: menos apelos a Salazar, mais taxistas sem conhecerem a cidade. As vezes que tenho de me desculpar por não saber os caminhos – “sabe, é que eu não conduzo, nunca tive carro” –, como se essa fosse a minha obrigação, são incontáveis.

Apesar de ter sempre algum medo ao apanhar um táxi no aeroporto e dizer que o destino é para ali ao lado, em Alvalade, a minha relação com os taxistas tem corrido de forma razoável. Há sempre o problema dos trocos. A rádio aos altos berros. Esporadicamente, uns aceleras. Mas a maioria dos profissionais foge ao estereótipo da “conversa de taxista”. Mas, na verdade, os estereótipos existem porque existem os “tipos”.

E foi isso que vimos na manifestação de ontem, onde estiveram 400 taxistas, uma minoria. Aparentemente, estavam lá todos “os tipos” que contribuíram para a existência do “estereótipo”. Trinta anos depois de começar a andar de táxi em Lisboa, tomei uma decisão: não quero correr mais o risco de me cruzar com alguns dos arruaceiros de ontem. E muito menos com o taxista que disse queas leis são como as meninas virgens, são para ser violadas”.

A Uber e a Cabify devem ser regulamentadas, mas são o futuro. As cenas de pancadaria que já aconteceram anunciavam que a manifestação de ontem iria ser devastadora para a imagem de toda a classe. Foi mortal. Desculpem, vou instalar a Uber. E vai ser hoje.

Sem comentários: