15 junho 2014

A "Copa" do... Vasco PV

É um artigo de Opinião, no "Público" de hoje, a que
Vasco Pulido Valente
deu o título "A "Copa" do Brasil".
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Vasco Pulido Valente
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O poder político sempre se pretendeu eternizar com grandes construções. Hitler, que se julgava arquitecto, era um maníaco também nesse capítulo. Queria reconstruir as cidades do III Reich, especialmente Berlim, Munique e Linz, onde esperava acabar a vida. Mussolini, em nome da força e majestade do Império de Augusto, destruiu uma considerável parte da Roma medieval.
Por cá, o dr. Salazar foi mais modesto, talvez por causa da sua cultura camponesa, talvez por falta de dinheiro. Mas, já em democracia, Cavaco retomou a tradição, com o Centro Cultural de Belém (ainda inacabado) e com a Expo 98, que em nome da “modernização” de Portugal levaram mais tarde à loucura do Euro 2004 e à baixa excitação patriótica de um certo público popular, conduzido pela televisão e pelos jornais.
Nunca percebi por que razão se pensa que esta espécie de espectáculos contribuem para o estatuto e o prestígio de um país. São normalmente exercícios de propaganda interna e de caça ao voto. Para o Euro 2004, Portugal construiu de raiz ou renovou radicalmente uma dezena de estádios, quando cinco ou seis bastavam. Porquê? Porque se o Estado e a administração local pagavam um estádio ao F.C. do Porto tinham de pagar outro ao Boavista: e, se o Porto ficava com dois, Braga exigia o dela; e Guimarães não podia ser maltratada nesta matéria essencial; nem Coimbra, nem Aveiro, nem sequer Leiria. Para não falar em Lisboa e no Algarve. Hoje, ninguém usa muitas dessas fantasias em cimento armado, que se tornaram um encargo inútil para as câmaras do sítio.
Isto vem naturalmente a propósito do campeonato e dos protestos do Brasil. O Brasil arranjou maneira de fazer doze estádios, ainda em construção ou de qualidade duvidosa, e gastar milhões com a segurança da rua e dos turistas. Ficará o mundo com mais respeito e admiração pelos responsáveis de uma extravagância sem explicação e sem desculpa? Não me parece. A Interpol até fala em “jogos combinados”, coisa nunca vista, e ao lado do futebol os combates quase diários do exército (repito, do exército) e dos manifestantes “anti-Copa” mostram bem a sociedade caótica e corrupta em que as festividades decorrem. Vale a pena por um espectáculo efémero provocar as cenas de violência que as televisões passam e revelar o verdadeiro atraso de um país que não se consegue governar?
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Vasco PV
15 06 2014

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