18 junho 2012

Actas da Câmara Municipal

Sessão de 27 de Outubro de 1959 (cont.)
…realizou-se a reunião ordinária semanal, sob a presidência do Excelentíssimo Senhor Manuel Filipe Pereira da Silva Magalhães Mexia, estando presentes os vereadores, Doutor Joaquim Arco, Doutor José Caldeira Areias, Eng. António Barroso, Joaquim Rodrigues Simões, Raul Veríssimo de Mira e Afonso Henriques Rocha
Assistiu à reunião o Primeiro-Oficial da Secretaria (Carlos Gentil) (?)
Átrio do edifício da Câmara Municipal





(cont.) Seguidamente, o Senhor Vereador Afonso Henriques Rocha disse:
Solicita-me Vossa Excelência a minha opinião sobre a vinda de Celulosa para Setúbal, o que passo a fazer.
Como componente de uma pequena indústria local que tem como fim. a venda de automóveis e acessórios, com oficina de reparação de automóveis equipada com máquinas para diversos trabalhos metalo-mecânicos, julgo de grande interesse e altamente vantajoso para o desenvolvimento da minha indústria como de outras congéneres, bem como para a actividade do comércio local, que se criem novas fontes de riqueza, principalmente grandes unidades industriais, necessariamente consumidoras em larga escala de produtos e serviços fornecidos por estas mesmas actividades e assim se verifica que, de Janeiro a Março, a indústria de que faço parte tem um período de paralisação, julgo, pelo motivo de se estar no defeso, valendo-nos justamente nessa altura, as grandes unidades industriais existentes, como sejam , Sapec, Sécil, Uep, Iola, et cetera, assim como alguns trabalhos que nos são solicitados pela indústria das conservas que aproveitam o período do defeso para fazerem vistoria e as respectivas reparações das suas máquinas, a fim de estarem devidamente aptas a trabalharem no início da safra,
No relativo aos problemas surgidos quanto a certas actividades actualmente existentes e tradicionais na nossa região, ouso emitir a opinião convicta e, creio, profundamente séria, de que à solicitação da mão de obra a fazer por qualquer unidade industrial de grande envergadura, acorreria grande massa de trabalhadores desejosa de trocar a sua actual profissão, incerta e pouco rendosa por outra que além de melhor remuneração lhe garante um trabalho permanente e certo, que lhes permitirá ver um melhor futuro para si e para a sua família.
Justificando esta minha opinião, devo dizer que na minha pequena indústria local, tenho empregado inúmeros marítimos como lavadores, lubrificadores, et coetera, que embora seja uma pequena indústria, portanto sem as garantias que lhes poderá oferecer uma grande unidade industrial, estes marítimos têm trocado a sua profissão, não empregando mais, porque para mais não tenho lugar, estando certo que o que sucede comigo, sucederá com os meus colegas e ainda, com as grandes empresas existentes que acima indico.
Pelo exposto e desde que a empresa garanta que a sua indústria não prejudicará as actividades existentes é com o maior entusiasmo que desejo que venha a celulosa e todas as grandes unidades industriais que possam vir aumentar e desenvolver a nossa cidade de Setúbal proporcionando aos seus habitantes, trabalho e bem estar de que todos nós desejamos.
A seguir, o Senhor Vereador Engenheiro Raul Veríssimo de Mira afirmou:
Vê na instalação da celulose a possibilidade de aproveitamento de largos areais impróprios para a agricultura mas de bom aproveitamento para o revestimento florestal à base de eucaliptos o que, além de constituir uma nova fonte de riqueza produziria outros benefícios para a lavoura.
Exprime todavia o receio de que a celulose venha contribuir para o impedimento da instalação de outras indústrias, mas reconhece as vantagens imediatas, no campo social e económico que a instalação, no concelho, desta grande unidade fabril constitui. No que respeita aos inconvenientes apresentados para a cultura do arroz não se lhe afiguram com sério fundamento, uma vez que o arroz é tratado com água doce e os detritos da celulose se escoam necessariamente para o mar.
Não pode deixar de salientar que, para a própria lavoura, a instalação de novas indústrias tem interesse por absorverem a mão de obra que esta vais dispensar por virtude da sua inevitável e necessária mecanização.
O Senhor Vereador Doutor José Caldeira Areias disse:
Não falo como técnico visto não ter tido oportunidade de estudar, sequer superficialmente, o problema da influência dos resíduos da indústria da Celulose sobre as espécies biológicas de interesse local.
Penso que não interessa à região formar-se uma corrente de opinião contra ou a favor da instalação da nova indústria mas sim, em face do problema social de Setúbal, em que se obtenham garantias seguras de que a laboração da Celulose não traga prejuízos à fauna do Sado, salinas e outras actividades locais ligadas ao Rio.
Tem-se perdido algumas indústrias para Setúbal, torna-se portanto de fundamental interesse a criação de um estado de espírito que favoreça o seu afluxo e nunca que provoque o seu agastamento.
A Celulose representaria inegavelmente um apreciável valor económico e social para a cidade. Desde que seja garantida suficientemente a defesa das actividades já existentes, a instalação desta nova unidade industrial seria um belo instrumentos de progresso para Setúbal.
Por fim, o Senhor Vereador Joaquim Rodrigues Simões afirmou:
Como lavrador, embora pequeno, mas encanecido (?) na sua actividade e no conhecimento prático das coisas da região, quero afirmar que considero altamente benéfico para a agricultura, o estabelecimento de novas e grandes indústrias em Setúbal. A agricultura e a indústria são as duas grandes alavancas do desenvolvimento económico, concorrendo ambas na tarefa de fomentar o progresso. Com a indústria aumenta o comércio, eleva-se o nível de vida e, consequentemente, valorizam-se os produtos agrícolas.
No respeitante ao perigo de conspurcação das salinas, desejo lembrar como agricultor e também como salineiro - que é em pequena escala – que existe grande e florescente actividade de extracção de sal marinho em toda a zona de Alcochete e Baixa da Banheira, na vizinhança imediata do Barreiro e dos depósitos da Companhia União Fabril.

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