08 junho 2018

Play it again, Sam...

Há vinte anos tinha uma coluna semanal
no "Público" sempre muito interessante.
Esta foi publicada em 21 Nov 1999
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Ricardo França Jardim
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A minha música preferida? Assim de repente baralhei-me. Para cúmulo estava numa operação de charme, a preparar um programa para a RTP Madeira, vadiagem por afectos e memórias do antigamente. E há que dar uma boa imagem pessoal, porque como dizia Erving Goffman, “o Eu (ou “self”, à inglesa) á a projecção da imagem que pensamos que os outros quem dar”, melhor dizendo, da imagem que queremos representar perante os outros. E ficaria mal admitir que só me ocorria uma modinha dos anos cinquenta, chamada “Ó rosa arredonda a saia, ó Rosa arredonda bem…”.
Deveríamos estar em Junho, porque tenho a ideia de a ouvir pela primeira vez numa “Festa da Cereja” que se realizava num cu de judas chamado Jardim da Serra. Nesse tempo, não sei se por influência da ditadura, se por oligofrenia dos compositores, as letras eram sempre muito assertivas, “Ó Rosa arredonda a saia”, “Ó careca tira a bóina”, “Ó Zé aperta o laço”, “Olha o polícia sinaleiro”, “Olha a malinha de mão” e “Olha o cochicho da menina” Levei 45 anos, tantos quantos trago de alfabetização para vencer a inércia e apurar a semântica desse significante. Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, 5ªEdição, página 331. “Cochicho – acto de cochichar; pássaro da família das Aláudidas (parece uma dinastia árabe), vulgar em Portugal, também conhecida por calandra ou calhandra; chapéu velho; brinquedo que imita o canto do cochicho; casa ou compartimento pequeno”. Fico-me pela ave e pela última hipótese. E questionando sobre a localização do compartimento capaz de albergar um passarinho no todo anatómico da menina, concluo que tal cantiga foi o expoente máximo da brejeirice erótico-satírica da época do doutor Salazar.

Estas canções estão ligadas à memória das telefonias sem fios aparelhos de grandes antenas a darem duas voltas ao quintal. Para mim aquilo era misterioso. De onde viriam os sons? Cheguei a admitir a hipótese de minúsculos anões, espécie de gnomos, metidos dentro de caixotes. Mas espreitava, espreitava, e só via válvulas que no rufado do aquecimento pareciam ovos a frigir. Para adensar o mistério, no Caminho dos Barreiros, a uma curva, entre bananais, havia uma pequena vivenda soterrada por uma floresta de postes. Era o posto do Cambado, nome oficial, Estação Rádio da Madeira. Às tardes, por volta das seis, abria o programa de MÚUSICA SOLICITÁÁAADA a cinco patacas cada disco, ATENÇÃO, Atenção Beco das Portadas, atenção menino Zezinho… É verdade que faz anos hoje? Pois os seus padrinhos muito amigos mandam-no apertar o laço… ATENÇÃO, Atenção, sítio do Jamboto, Santo António, atenção dona Gorete Freitas… ouvimos dizer que está de partida. Uma pessoa que muito lhe quer, pede licença para lhe oferecer uma malinha de mão. E a publicidade. “Vai para a Venezuela, Curaçau, ou Miami? Não ande para a frente nem para trás, dirija-se directamente à agência Ferraz. Bom tempo e bom vento só no paquete Surriento.” “Surriento. Almoço, jantar e ceia, mesa farta e garrafa cheia.”. Não há dúvida. Somos um país de poetas.
Bom, despistei-me. Estava a preparar um programa de televisão e tinha de escolher uma música e parecia mal  a “Rosa arredonda a saia”, havia que dar um ar intelectual “demodé”. Puxei pelos neurónios e saiu o “Summertime”. Gershwin fica sempre bem. Outra música??? Olha, o “Over the Rainbow”. Ouço-o ciclicamente, interpretado pelo Stan Getz em tenoesax. “Ah, é o tema do Feiticeiro de Oz”, sorriu amargamente a entrevistadora, que tem uma criancinha de onze anos e já viu essa fita mais de duzentas vezes. Confesso, gosto muito da Judy Garland, mas nunca aguentei 5 minutos. Nessa altura entrou o pianista e disse que o “Over the rainbow” é sempre a mesma toada, dlim dim dim  e volta ao princípio, porque o compositor ficou amnésico e repetia os acordes até que um aspectador chateado lhe atirou com uma garrafa à cabeça e veio o 115, nii nóó, nii nóó nii, aí o homem recuperou a memória e engatou no ritmo, dlim dim dim, nii nó+o, ni e por aí adiante. Perceberam? É uma anedota só para músicos que por muito que ouça uma melodia, sou incapaz de a cantarolar, tenho orelhas como toda a gente, mas falta-me o ouvido musical. A pontos de, no primeiro ano de Canto coral no lIceu, quando os meus colegas iam no Nobre Povo, do Hino Nacional, eu já disparava os canhões da estrofe final. E o professor, um tal cónego Agostinho Gomes, tentou afinar-me o ouvido agarrando o lóbulo da orelha entre o polegar e o indicador e torcia e retorcia e rodava como quem sintoniza um rádio e nem assim conseguiu. E desistiu e dispensou-me das aulas. De modos que descurei a educação musical e aqui estou a substituir o “Over the rainbow” por outra música cujo nome nunca me ocorre (mas perguntei à minha filha e ela garante chamar-se “As time goes by” e até escreveu num papelinho), porque adoro aquela cena do “Casablanca” quando a Ingrid Bergman se dirige ao pianista e pede “Play it again, Sam”, perante a fúria comovida do Bogart, porque no fundo sou um romântico envergonhado…”  

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