25 março 2016

Luciano fazia anos hoje...

Não!... Não foi por descuido. Nem foi por engano que este apontamento que aqui deixo acaba por sair com três semanas de atraso. Foi apenas por oportunidade... Aguardei a data do aniversário de Luciano Santos que ocorre hoje, para falarmos um pouco sobre aquela homenagem e sobre a obra do pintor.
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Por convite do António Quaresma Rosa assisti no passado dia 4 de Março, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal a uma homenagem prestada a Luciano Santos, levada a feito pela Universidade Sénior de Setúbal - Uniseti com a colaboração do Centro de Estudos Bocageanos. A escolha do local não podia ter sido melhor... pois, como fundo, à figura dos oradores que por ali passaram, tivemos a possibilidade de repousar os olhos e admirar a obra magnífica com que o mestre Luciano revestiu a parede sul daquela preciosa sala de visitas da nossa cidade.  
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       Foi na sua reunião de 30 de Junho de 1952 que a Câmara Municipal de Setúbal, composta pelos srs. dr.Miguel Rodrigues Bastos (Presidente), Augusto César Lopes Pedrosa (Vice-Presidente) e Joaquim António de Carvalho e Oliveira, Dr.José Maria Cardoso Ferreira, Manuel Xavier Santos Jacob, Alberto Mendes, José Matias Narciso Ferreira de Freitas e Francisco Maria da Silva, vereadores, tomou a resolução, por proposta do seu Presidente, de confiar ao Pintor setubalense Luciano, a execução do Tríptico evocador de algumas das mais ilustres figuras de setubalenses de todos os tempos.

Sob a presidência de Sua Ex.ª o ministro da Educação Nacional, Senhor Professor 
Doutor Francisco Leite Pinto

foi o mesmo Tríptico inaugurado no dia 9 de Janeiro de 1957. aniversário do nascimento da grande Cantora Luísa de Aguiar Todi, sendo a Câmara Municipal de Setúbal constituída pelos sr.: Dr. Jorge Carlos Botelho Moniz (Presidente), Dr.Manuel Seabra Carqueijeiro (Vice-presidente) e Dr. Eduardo da Costa Albarran. Afonso Henriques Rocha, Dr.Joaquim Arco, Eng. António Barroso, Joaquim Rodrigues Simões e Dr. Henrique Chancerelle de Machete, vereadores.
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 Luciano Pereira dos Santos nasceu em Setúbal o dia 25 de Março de 1911
Tendo ficado órfão ainda criança, foi recolhido e acarinhado pela Câmara Municipal que o educou, primeiro no Orfanato Municipal e que, mais tarde, permitiu que estudasse e fizesse o Liceu; mais tarde ainda se encarregou o Governo Civil de o auxiliar com o pagamento da frequência e da formação artística que obteve com o Curso de Pintura.
Na verdade, a vocação que desde muito novo evidenciou para as Artes Plásticas levou a que o Governador civil de então decidisse enviá-lo, como seu bolseiro, para a Escola de Belas Artes em Lisboa, a fim de fazer o curso de Pintura. Como aluno deste estabelecimento de ensino foi-lhe concedida a "Pensão Ventura Terra" e conquistou depois o "Prémio José Malhoa", atribuído pela primeira vez, em 1934.

Luciano Santos (auto-retrato)

Segundo nos relata o seu filho, Luciano António dos Santos, "no final do Curso de Pintura, foi numa Missão Estética de Férias para Alcobaça, com os colegas de curso e foi ali que conheceu a minha Mãe, que o acompanhou e apoiou sempre ao longo de toda a sua vida"
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Na verdade, em 1940, recebeu em sessão pública e solene, das mãos do Chefe do Estado, Marechal Carmona, o “Prémio Nacional” da 3ªMissão Estética de Férias, atribuído pelo Ministério da Educação Nacional.

Exerceu o Ensino Técnico Profissional nas Escolas Industriais de João Vaz de Setúbal, Machado de Castro e Afonso Domingues de Lisboa..

Sobre Luciano, escreveu o Dr. Celestino Gomes:”A obra do pintor Luciano não precisa de explicação porque se explica a si própria: existe, colocada certa no tempo e no espaço.” Em finais da década de 50, dizia de Luciano o “brilhante crítico de arte Dr. Fernando Pamplona”: “Na figura, abalança-se ao retrato – e fá-lo com vigor e simplicidade que surpreendem. Não procura a elegância, sequer a graça, mas tão somente a nitidez e a fria análise. Obtém, por vezes, efeitos impressionantes, apesar da intencional dureza do modelado e dos contrastes.
(…) “Luciano soube descobrir e captar o carácter racial das mulheres da Nazaré, corajosas, rijas, afeitas às durezas da vida, às suas feras batalhas. Estão neste caso “Nazarena ”  (
Não sei a qual das "Nazarenas" se refere Fernando Pamplona, uma vez que existem duas peças com o mesmo nome... Tudo leve a crer que se trata da figura aqui representada sem cor.)
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A "Nazarena"
Óleo sobre cartão
Colecção particular

A "Nazarena" - 1946
Óleo
(Colecção particular o Exº Sr.Eng.Costa Alemão)
(Que pena não estar a cores)

No início desta sessão, realizada em 4 de Março, usou da palavra o António Quaresma Rosa que logo informou não ser possível ali estar presente o conferente convidado, sr.Luciano António Santos, filho do pintor, por motivos de saúde de alguma gravidade. Em seu lugar, encarregou-se de fazer algumas considerações com base num breve apontamento escrito por Luciano António, o Dr.Américo Pereira.

A intervenção do Dr.Américo Pereira

(numa foto de Simoes Silva)

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Outras obras de Luciano:

Praça de Bocage - 1952
Óleo sobre madeira
Museu de Setúbal - Convento de Jesus

Docas de Setúbal - 1970
Óleo sobre madeira
Colecção Particular
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No decorrer desta homenagem tiveram intervenções de muito mérito alguns dos convidados ali presentes.

A abrir a sessão, usou da palavra o Presidente da Direcção da Uniseti, Dr.Armando Sacramento que fez uma pequena introdução e agradeceu a presença de todos quantos ali estavam reunidos.
Falou em seguida o António Quaresma Rosa, colaborador do CIMM, um departamento da Uniseti, que se encarregou também de estabelecer e ordenar a participação de todos quantos quiseram contribuir para o brilho atingido na homenagem ao pintor Luciano. 

António Quaresma Rosa
(numa foto de Simoes Silva)
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1.Em nome do Centro de Estudos Bocageanos, Daniel Pires agradeceu à Uniset e a António Quaresma Rosa o convite para estar presente nesta homenagem a Luciano Santos.

Dr.Daniel Pires, 
do Centro de Estudos Bocageanos
(numa magnífica fotografia de António Claro)
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O Dr.Daniel Pires mencionou depois a ideia de preservar a memória de Setúbal quando em 2011 o CEB deu início à colecção “Clássicos de Setúbal”; aproveitou para mencionar o nome de algumas obras publicadas desde então, não esquecendo os autores das mesmas, nomeadamente Rogério Peres Claro e José Mateus Vilhena. Informou ainda que o Centro tinha decidido criar uma segunda colecção, a que deram o título “Clássicos de Setúbal de Bolso” que abre com a biografia de Luciano Santos, o pintor que ali se homenageava naquele momento.

2.Eng.Francisco de Paula Moniz Borba contou alguns episódios, um dos quais terminou com o pintor Luciano a almoçar em sua casa, a convite do Eng.João Borba, após uma intervenção do pintor na Capela do Corpo Santo. Recordações de infância mas que não esquecem.

A intervenção do Eng. Agr. Francisco Borba
(numa foto de Simoes Silva)
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3. António Santos fez uma intervenção a propósito da passagem de Luciano Santos pelo Orfanato Municipal de Setúbal, em paralelo com a experiência por que ele próprio passou uns anos mais tarde.
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António Santos aprendeu a ser tipógrafo
quando esteve no orfanato
(numa foto de Simoes Silva)
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No final, a Intervenção da poetiza Maria do Carmo Branco

Maria do Carmo Branco
recita Sebastião da Gama
(numa foto de Simoes Silva)

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