20 setembro 2012

Um poema...

... de Eugénio de Andrade
chamado "Os amantes sem dinheiro".


Eugénio de Andrade
Desenho de Dordio Gomes/1960




Os amantes sem dinheiro

Tinham o rosto aberto a quem passava
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados

Tinham fome e sede como bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos,
mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e de deslumbrado, penetrava nos espaços

Eugénio de Andrade
In. “Os amantes sem dinheiro
1950

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