06 fevereiro 2017

Não posso amar-te mais...

...num poema de
Eugénio de Andrade
a que o autor deu o título:
"Serenata"
.
Eugénio de Andrade
.

Venho ao teu encontro a procurar
bondade, um céu de camponeses,
altas árvores onde o sol e a chuva
adormecem na mesma folha.

Não posso amar-te mais,
luz madura, espaço aberto.
Não posso dar-te mais do que te dou:
sangue, insónias, telegramas, dedos.

Aqui estou, fronte pura, rodeado
de sombras, de soluços, de perguntas.
Aceita esta ternura surda, 
este jasmim aprisionado.

Nos meus lábios, melhor: no fogo,
talvez no pão, talvez na água,
para lá dos suplícios e do medo,
tu continuas: matinalmente.
.
Eugénio de Andrade
in. "Até amanhã" - 1956

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