04 dezembro 2016

Liceu Bocage 2

Liceu Bocage
Ano da Inauguração
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Liceu Nacional de Setúbal
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A crise de trabalho é notória nos finais do ano de 1948 e as forças políticas disso têm consciência.

Em meados de Novembro a presidência da Cãmara faz-se eco dessa crise latente e desencadeia uma acção que tenta ultrapassar o desemprego que se faz sentir. Na imprensa surge uma notícia destacada, provavelmente resultante de alguma conversa de bastidores com jornalista de peso...

A Crise de Trabalho e a Câmara” é o título logo seguido de um texto que expôe assim a situação:

“Depois de alguns dias que pareciam animar a cidade com o aparecimento de peixe, continuamos a sentir os efeitos de uma crise bastante acentuada na indústria conserveira e vida doméstica, sem matéria prima para a primeira e peixe suficiente para o abastecimento público, atingindo o que aparece no mercado, preços fabulosos e incomportáveis.

Felizmente a nossa Câmara Municipal, para minorar a situação bastante difícil de algumas classes, abriu numerosas obras públicas onde, felizmente, se empregam às centenas, os trabalhadores e operários da construção civil. É ver a azáfama que vai por essa cidade, onde presentemente estão em execução as seguintes obras:

Abertura da Avenida de acesso ao Liceu,
Pavimentação do Bairro Económico
Abastecimento de água à Cidade
Construção da Rede de Esgotos
Construção dos depósitos de água, os maiores do país.
Construção de 80 moradias do Bairro Carmona.

Foi, sem dúvida uma medida de grande acção social, esta da Câmara, não havendo na cidade crise na construção civil.”

O fecho de algumas fábricas, a falta de pescado que se tem feito sentir, provoca bastante falta de trabalho... Não podemos falar em despedimentos, pois nesta altura quase todo o trabalho em fábricas seria precário. Há peixe! Tocam as sereias e há trabalho... Não há peixe... ficam mudas as sirenes e não há trabalho... 

Os sindicatos não têm força... Os sindicatos não defendem o trabalhador e o trabalhador não ganha a jorna, nem no defeso nem quando os pescadores não aparecem com o peixe...
É a crise que se arrasta há muito tempo.
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...Concluiu a sua formatura na Escola Médica de Lisboa, o sr. Dr. João Maria da Silva Duarte, há muitos anos residente em Setúbal.
O Dr. João Maria da Silva Duarte aparece em Setúbal, menino e moço, vindo transferido do Liceu de João de Deus, em Faro, em 31 de Outubro de 1934. Devia ter 12 ou 13 anos e ficou inscrito na turma A, do 3ºAno, onde ficou com o número 21.
E portou-se bem! “Transitou para o ano seguinte com a classificação de 13 valores”. Uma nota esplêndida para a época!
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Uma das três filhas, a Maria Adelaide foi minha aluna em 1964, ano em que teve notas excelentes. E também o filho João Manuel, quatro anos mais tarde me “prestou contas”, antes de prosseguir os estudos de Medicina, seguindo as pisadas do Pai. Fez parte de uma turma do 7ºAno que foi pródiga em médicos e médicas. Para além dele, faziam parte daquela turma o Francisco Osório Trindade da Cunha, a Maria Arlete de Oliveira Horta, a Maria do Carmo Trindade Santana, o Paulo Bordeira e não sei se mais algum me escapa...

E como a vida não pára, já foi meu aluno, também, o João Daniel Frixell Silva Duarte, filho deste último e da antiga aluna do nosso Liceu D.Maria Manuela Frixell e que é actualmente professora na Escola Secundária da Camarinha.
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Em finais de Novembro era noticiada a doença de Domingos Tavares Roque. “Vítima de sério desastre, tem estado em Lisboa, em tratamento...” Nem por isso deixou de haver notícias no Jornal...
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Em 27 de Novembro, numa das suas páginas interiores, o Setubalense mostrava um Anúncio com interesse para a Cidade.
“Ministério da Obras Públicas -- Concurso público para arrematação da empreitada de arranjos exteriores, do Liceu de Setúbal.

Base de Licitação . . . . 397.166,00
Depósito Provisório . . . 9.930,00
Lisboa, 22 de Novembro de 1948
O Eng. Administrador Delegado
José de Lencastre e Távora
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Por esta época, era Presidente da Câmara Municipal de Setúbal, o sr. Dr. Miguel Rodrigues Bastos; era Sub-Delegado do Instituto Nacional do Trabalho e Previdência, o sr. Dr. Fausto Ferraz; era Reitor do Liceu, o sr. Dr. Manuel Gamito; era director da Escola Técnica, o sr. Eng.Armando Medeiros; era Sub-Delegado da Mocidade Portuguesa, o sr. Dr. Rogério Peres Claro e Sub-Delegada da Mocidade Portuguesa Feminina, a srª D. Josefina Gamito.
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Tinham acabado de ser eleitos há pouco tempo, os Corpos Gerentes da Misericórdia de Setúbal, para o triénio de 1949/51.
Como Presidente e Secretários da Assembleia Geral, figuravam os nomes do Dr. Luis Teixeira de Macedo e Castro, Carlos Homem de Figueiredo e Fernando Galope dos Reis.
Na Mesa Administrativa, como Provedor, foi eleito o sr. Ten. Cor. Jorge Carlos Costa, como Secretário, o sr. Cap. José de Almeida Cassar e como Tesoureiro, o sr. António José de Morais Junior.
Eram Mesários, os srs. António Luis Esteves, José de Freitas e Luis Adriano Costa Coelho e seus substitutos os srs. Eng.Armando Athaide Pereira Medeiros, Ernesto Louro Fernandes de Castro e Luciano Augusto Rouillé.
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No Liceu continuava a festejar-se o Natal, nos dias que coincidiam com o fim do 1º período.

“A quadra festiva do Natal é festejada no Liceu este ano, mantendo-se uma já velha tradição.

Amanhã pelas 15 horas, realiza-se a tradicional festa do Natal, promovida pelos filiados dos Centros liceais da Mocidade Portuguesa masculina e feminina, da seguinte forma:

Sessão literária e musical a que assistem os convidados a quem a festa é dedicada e que são os internados no Asilo da Infância Desvalida, Internato da Casa dos Pescadores, Florinhas da Rua, Casa de Santana e Orfanato Municipal Dr. Sidónio Pais.

O programa é o seguinte:
a) 1. Hino da Mocidade Portuguesa
2. Canções:
Vamos pastores
La ronda da Navidade
Nina-Nana
3. Relicário - baile espanhol
4. A Boneca - recitação
5. Noite de Encanto - revista, fantasia
6. Flores - bailado
7. O Presépio - recitação
8. Vira “Canta Cachopita”
b) Exposição de um Presépio e distribuição de brinquedos às crianças convidadas.
c) Merenda oferecida às mesmas e servida por senhoras Professoras do Liceu e Alunas.
Ainda antes do Natal, far-se-à a distribução de enxovais, a crianças pobres, confeccionados por alunas do Liceu.
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Em 20 de Dezembro era noticiada a “Morte de uma Escritora Setubalense”. Na verdade Olga Morais Sarmento acabava de deixar-nos e a notícia da sua morte surgiu tão simples como simples foi a sua vida.
“Realizou-se em Lisboa, onde residia, o funeral da conhecida escritora D. Olga de Morais Sarmento que, na vida literária, deixou lugar de evidência.
Nascida em Setúbal em 1881, era viúva do Dr. João Manuel da Silveira, médico naval morto na Campanha do Cuamato...
...Era condecorada com a Legião de Honra e as Ordens de Cristo e de Santiago...”
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Num dos últimos dias do ano esteve encerrada ao público a Mata do Garcia, durante apenas algumas horas, a fim de manter-se o direito de propriedade.
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O início do ano de 1949 é frio e chuvoso.
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Rezam as memórias que era, por essa altura, Capitão do Porto de Setúbal, o senhor Comandante Duarte de Almeida Carvalho e Piloto Mor o senhor José Joaquim Lopes. Cândido Bogarim era então Piloto da Barra.
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Na Estação de Fruticultura da Varzinha pontificava o senhor Eng. Lopes da Fonseca e o Eng. Armando Henrique Roovers da Costa Neves, espreitava já a sua vez, como Director Adjunto daquela Instituição.
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Nas vésperas do aniversário do nascimento de Luisa Todi, o Café Central inaugurava uma secção de Restaurante, no andar superior das suas instalações, na praça de Bocage, onde reside agora o Banco Português do Atlântico.
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No segundo domingo de Janeiro, o saudoso Domingos do Rosário marcou o golo solitário do Vitória contra o Belenenses, que venceu por 3-1, o encontro das Salésias.
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(cont.)

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