07 novembro 2016

A opinião de VPV...

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O Diário de
Vasco Pulido Valente
31 de Outubro a 5 de Novembro

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Vasco Pulido Valente


Segunda-feira

Dizem que por pressão de Angola e dos negócios do petróleo, Portugal aceitou a Guiné Equatorial (um antigo protectorado espanhol) na CPLP. A Guiné Equatorial é uma ditadura, governada desde 1979 à maneira norte-coreana, por um indivíduo chamado Teodoro Obiang e pelo filho Teodorino Obiang, um gangster internacional procurado pela polícia francesa. Neste paraíso dos direitos do homem continua a existir pena de morte e a máquina de repressão que produz para o pai Teodoro maiorias de 98 por cento dos votos. Muito bem, não se pode pedir perfeição a toda gente. Mas talvez se pudesse pedir ao Estado português, que se rege teoricamente por outros princípios, que não admitisse a Guiné Equatorial na CPLP, tanto mais que a população só fala francês, vagamente espanhol e umas tantas línguas tribais. Não foi esse o parecer das cabecinhas que nos pastoreiam. Pior ainda, sem discutir a coisa (e nem sequer a revelar), o primeiro-ministro e o Presidente da República resolveram agora, por sua alta recriação, propor que, como na Commonwealth, os naturais de qualquer país da CPLP gozassem em Portugal dos mesmos direitos dos portugueses (incluindo o direito à residência). Não é preciso ser bruxo para perceber que esta enormidade (que viola Schengen e vai irritar profundamente a “Europa”) tresanda a petróleo ou a negócios de petróleo. Nós sempre vivemos numa pobreza envergonhada. O dr. Costa e o dr. Marcelo perderam a vergonha.


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Quinta-feira

É celebrado este ano o centenário de uma pessoa de que hoje ninguém se lembra e que ninguém lê, Mário Dionísio. Foi um mau poeta, um mau romancista, um mau pintor de fim-de-semana e, principalmente, um mau crítico. Mas no cume do antifascismo, logo a seguir à guerra, foi também o “controleiro” do PC para o “sector intelectual”. Quando Cunhal, já preso, exigiu aos pobres literatos portugueses o estrito acatamento dorealismo socialistade Jdanov, Mário Dionísio saiu do partido, mas ficou até ao fim da vida um “simpatizante” convicto. Conheci muito bem o indivíduo. Primeiro, como professor de literatura portuguesa no Colégio Moderno de João Soares (avô) e, depois, porque os meus pais, igualmente devotos da seita, eram amigos dele. À sexta-feira, havia sempre uma reunião em casa de Mário Dionísio, cuja função era discutir a “linha correcta” para o PC, os “desvios” ideológicos da “inteligência” indígena e, lateralmente, as malfeitorias da Ditadura. Faziam parte deste grupo João Cochofel e a mulher, a pianista Maria da Graça Amado da Cunha e o marido (Roger de Avelar), o erudito excêntrico Huertas Lobo (*)  e uma ou outra figura de passeio. A partir dos doze, treze anos, comecei a ser arrastado para esta catequese e passei muitas noites – calado e quieto – a ouvir aquela gente perorar.

Mário Dionísio, como é evidente, presidia. Os meus pais mal abriam a boca: a minha mãe não tinha qualquer qualificação formal e o meu pai não passava de um engenheiro químico, ainda por cima director de uma empresa. Mas, calados que estivessem, não escapavam à crítica do seu estilo de vida. Tiveram de prometer não gastar mais do que ganhava um funcionário de Estado médio, não usar o carro em viagens de prazer e não me vestir luxuosamente. O povo passava fome e um bom comunista não devia viver como um milionário. Foi assim que, com muita raiva minha, usei calça curta e casacos voltados durante o liceu inteiro, ou quase.

Fora isso, Mário Dionísio, justiça lhe seja feita, defendeu meia dúzia de escritores contra a fúria jdanovista do tempo, entre os quais José Cardoso Pires que me descreveu mais tarde os tremores com que tinha ido apresentar Os Caminheiros ao sumo sacerdote da ideologia. Como seria de esperar, Dionísio acabou a presidir à “comissão de saneamento” do Ministério da Educação. Toda a vida se preparara para esse nobilíssimo papel. Quando o meu pai morreu, deixou um quadro de Mário Dionísio: não houve leiloeiro ou ferro-velho que lhe pegasse.

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(*) José Ferreira Huertas Lobo foi professor de Desenho no Liceu Nacional de Setúbal, nos anos-lectivos de 1963/64 e de 1964/65 (teria 50 anos). Era, de facto, muito excêntrico... e, quase sempre, alvo da "chacota" dos alunos... mas "não só"!...

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