25 fevereiro 2015

Frequentava a Cister...

... na Politécnica. Presumo que morava ali por perto. Pequeno-almoço e jornais, o tempo suficiente para ir à vida logo a seguir.
Luís Osório dedica-lhe o Editorial do "i", de hoje, dia 24 de Fevereiro e desenha dele um bom retrato.
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Luís Osório
Director-Adjunto do "i"
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Podia ter sido tudo, mas estava condenado a ser tudo sem ter sido nada do que vários vaticinavam. O preço a pagar pela petulância de ser livre.

José Medeiros Ferreira dizia de si próprio ser um “profeta desarmado”. Um profeta sem as armas do tempo, mas com a arrogância e o ego de uma superioridade moral e intelectual que poucos políticos ou homens do poder suportavam. De todos os que conheci, e foram alguns, ninguém juntava tão bem a liberdade de espírito e acção, a ironia e a sofisticação. Uma mistura explosiva, que nunca dá bons resultados para quem deseja também um comprometimento público com o exercício da cidadania e da política activa.
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José Medeiros Ferreira
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Era um poço sem fundo de sabedoria. Privei com ele nos meus primeiros anos de vida adulta. Arrogante, de ideias absolutas, aprendi a fazer silêncio, a escutar, a pôr palavras na balança. Difícil não fazer silêncio quando o risco de ficar aquém era total, mais difícil ainda resistir incólume ao seu humor finíssimo, ironia que interpela, põe em causa, esmaga o descaramento da ignorância e a infâmia dos que, tendo poder, não têm solidez e cimento.
Deixou de ser ouvido. Não estavam para o aturar. Uma parte substancial dos deputados da sua bancada, ministros e estrelas mediáticas de pacotilha, não suportavam ser confrontados com a sua própria pequenez, a sua incultura, a sua pobreza retórica. Era uma chatice o José Medeiros Ferreira. Como são Vasco Pulido Valente, António Barreto ou Pacheco Pereira. O país dos que decidem, dos que influenciam, habituado e balofo de tanto fast food, nunca aguenta de ânimo leve o raciocínio de gourmet deste príncipe de Maquiavel.
Tinha um ego enorme. Vestia-se bem. Circulava pelo parlamento ou por casa com a leveza de um aristocrata. Os salões eram seus, imagem implacável que pagou cara. Por isso, também por isso, foi o mais jovem ministro dos Negócios Estrangeiros da história, com pouco mais de 30 anos, e nunca mais haveria de ser o que parecia estar escrito. Mais nada. Enquanto ministro ajudou a criar condições para a entrada de Portugal na CEE e lançou a ideia revolucionária dos três D: Democratizar, Desenvolver, Descolonizar. Podia ter sido tudo, mas estava condenado a ser tudo sem ter sido nada do que vários vaticinavam. O preço a pagar pela petulância de ser livre num país acanhado, um pouco cinzento e sempre cruel para quem não se orgulha com a mediania.
Esteve no governo de Mário Soares, apoiou Sá Carneiro, ajudou a fundar o PRD (faz precisamente hoje 30 anos) e voltou ao PS, onde nunca comeu e calou. Defendeu que Sócrates devia abandonar a liderança e não concorrer às últimas eleições legislativas; em troca o ex-primeiro-ministro retirou-o da lista de deputados. Talvez por isso tantas estrelas políticas e mediáticas estiveram na homenagem que lhe fizeram na Gulbenkian. Cavaco, Sampaio, Eanes, quatro ex-presidentes da Assembleia da República e dezenas de homens e mulheres que disseram ao país o quanto Medeiros Ferreira foi importante, decisivo, maravilhoso e o diabo a sete. O actual Presidente da República afirmou que José era avesso a lugares-comuns, afirmação que ela própria foi um lugar-comum. Não interessa, ainda bem que esteve. Ficou-lhe bem.
Uma homenagem justa que foi também uma metáfora de um país hipócrita. Um país em que os políticos falam de liberdade sem realmente a tolerar. José foi ostracizado em vida por pensar pela sua cabeça, por ser um franco-atirador que toda a gente temia. Muitos dos que o celebraram, não todos mas muitos, são os mesmos que não o toleraram, não o convidaram, não suportavam a sua presença. O resto pertence à história. 

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