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15 outubro 2022

O Cipriano da Vela...

Este texto foi escrito em 
26 de Julho de 1997.
.

        Esta manhã, numa Brasileira sem ninguém, sentou-se na mesa ao lado da minha, um estranho personagem, “artista” habitué por aquelas paragens e que me tem chamado a atenção pela maneira como veste e se comporta. Por vezes sozinho, escrevendo ou pintando ou gravando os mais diversos materiais, de pequena dimensão, estilo postal ilustrado. Deve viver de expedientes...

     Acompanhado por um outro indivíduo, ficou só passado algum tempo. E logo a seguir dirigiu-me a palavra:

     “O Dr. desculpe... não quer ficar-me com um destes desenhos?” e passou-me para a mão alguns daqueles postais, todos eles com um desenho de flor com um poema escrito por cima...

     Antes que eu me “encolhesse” acrescentou:

É para ver se dá para o almoço...” e aí, avancei com um postal mesmo depois de ter mencionado como “preço” uma nota de quinhentos.

“Se é para a ajuda do almoço está bem! Devem ajudar-se os “artistas...”, acrescentei à medida que lhe entregava a “nota” combinada.

Só então se deu a conhecer...

“Eu fui aluno aqui no Liceu... Não fui seu aluno, mas lembro-me muito bem de si. Tirou-me uma vez, a mim e ao meu cunhado Zé Augusto, uma fotografia num barco que, mais tarde, esteve ampliada e exposta na Feira de Santiago...

Era o Cipriano!... O Cipriano da Vela, o Cipriano lourinho e gorducho de quem fui Director de Ciclo nos finais da década de sessenta... Bons e velhos tempos... O Cipriano não tem agora nada de gordo, antes pelo contrário... e de loiro só parecenças... Está alto, está magro e parece não viver com muito desafogo.

Disse-me que esteve imigrado mais de 12 anos, na Suíça. E que a vida lhe foi madrasta. Não entrei em pormenores, achei que não devia...

Mostrou-me alguns trabalhos dele. E os manuscritos de dois livros de poemas que diz querer publicar.

Não resisto a transcrever o poema que coube no postal que lhe valeu metade do almoço de hoje...

Sobre uma “Rosa vermelha” desenhada em lápis de cor, escreveu o seguinte Poema que assinou num rabisco onde não me seria possível, por mais boa vontade que tivesse, descortinar a palavra Cipriano... 

Prenda Rosa

Rosa Rosa

Rosa Cor

Cor de Rosa

Branca Rosa

Rosa Flor

Primorosa

Rosa em Flor

Meu Amor

(segue uma assinatura feita um rabisco)

E é simples, mas muito bonito, este Poema...

                            

10.07.1969 
O Zé Augusto e o Cipriano
fazendo vela no Sado
(a tal fotografia que esteve exposta na
Feira de Setúbal, ainda na Avenida Luísa Todi).

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