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29 outubro 2020

Jorge Alberto Paulino Pereira

Li com agrado, e a propósito de tema "deficientemente recordado" que surgiu há dias nas "redes sociais", um texto da autoria do Jorge Alberto Paulino Pereira que não posso deixar de referir. Trata-se de um apontamento que se aproxima mais da "verdade" havida no início do ano de 1961 - A criação de um Grupo Coral em Setúbal.

Jorge Alberto Paulino Pereira
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"Coral Luísa Todi: uma memória viva da minha infância
Quando ouço falar de "Coral Luísa Todi" a minha alma aquece, despertando-me recordações duma infância feliz, na Setúbal que quase me viu nascer.
Nos longínquos anos sessenta a nossa família vivia na Avenida 22 de Dezembro nº 94, um casarão construído em 1900 ainda de pé naquele quarteirão de habitações que fizeram uma época. Foi nessa precisa casa que nasceu o Coral Luísa Todi e onde foram redigidos os seus estatutos originais.
No então Liceu Nacional de Setúbal lecionava a minha mãe Auzenda e um professor de Canto, Américo Vieira, que se tornaria no primeiro maestro do Coral Luísa Todi. Dessa proximidade profissional nasceu a ideia do Coral, que se foi concretizando através de várias reuniões em que foram redigidos os seus estatutos.
Esse projecto teve também a colaboração de quem viria a tornar-se num dos fundadores, e também coralista: Manuel Entrudo Nascimento Lino. Com efeito, a primeira Direcção do Coral Luísa Todi englobaria, para além da minha mãe, o Maestro Américo Vieira, o Sr. Entrudo Lino e ainda o Sr. Fernando Rodrigues como tesoureiro.
Pouco tempo depois, o Coral Luísa Todi faria as suas primeiras apresentações públicas, dignificando a vida cultural da nossa cidade de Setúbal. Numa delas, nos Paços do Concelho, o meu irmão Luís, então com apenas 7 anos de idade, actuou com o Coral sob a batuta do Maestro Américo Vieira, num pequeno solo como "Menino Jesus da Lapa", perante uma sala repleta e sob o olhar ternurento da nossa mãe Auzenda, também coralista.
Decorreram anos, passando eu a ter memórias vividas do Coral, sempre uma instituição tão presente em nossa casa e no coração dos meus pais. Contavam-se histórias, planeavam-se concertos, comentava-se a música e as vozes que compunham aquele agrupamento maravilhoso. Recordo o entusiasmo do meu pai, que entretanto compunha a Direção do Coral com os Senhores Castanheira e Fernando Teixeira, com um novo Maestro: Jorge Manzoni. Como era entusiasmante cada serão de ensaios na Câmara Municipal de Setúbal, em que me deixavam assistir em silêncio à preparação de mais uma peça que encantaria novas audiências. Recordo também episódios de desespero, como a actuação perante o Presidente da República em Lisboa no Coliseu dos Recreios, em que a desastrosa acústica não permitiu uma audição condigna, com as coralistas em lágrimas que me contagiavam com a sua tristeza.
Tornei-me adulto, ouvia espaçadamente falar do Coral. Apercebi-me de que o entusiasmo dos meus pais já não era o mesmo, mesmo apesar de, em família, comentarmos fotografias antigas de actuações gloriosas. Um dia acompanhei a minha mãe a uma sessão comemorativa do aniversário do Coral Luísa Todi, em que publicamente se contou uma história muito diferente sobre as suas origens. De tal forma que a minha mãe saiu ao intervalo. A sua saída não passou despercebida a muita gente que a foi cumprimentar.
Desta forma, a propósito de mais um aniversário da instituição que recordo com tanta felicidade, personifico em mim a tristeza que os meus pais sentiriam, num momento em que foram esquecidos.
Esta é a minha verdade, a versão em que acredito, porque me foi transmitida por quem me deu o ser e me formou como ser humano. Haverá outras? Certamente. Mas, para mim, não são a mesma coisa.
Parabéns, ao Coral e à Setúbal que trago no coração!
Jorge Paulino Pereira"
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NB:
Olá Jorge...  Gostei de ler este teu "desabafo" porque sei que corresponde á verdade tudo quanto ali dizes... Eu lecionava no Liceu em 1961. Fui colega da tua Mãe D. Auzenda e do professor de Canto Coral Américo Vieira que dedicaram muito do seu tempo à formação do Grupo Coral em causa; conheci o Sr. Lino, conheci e fui amigo do Fernando Rodrigues. Mais tarde, passei a ouvir "outras histórias" que foram lançadas na opinião pública através de uma fonte ligada ao jornal "que morava" num primeiro andar da Praça de Bocage... mesmo em frente do antigo Café Central.
Os tempos mudam mas... há memórias que prevalecem.
Um abraço, Jorge.

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