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09 novembro 2007

Museu do Prado - As Majas

As Majas
Francisco Goya
1746 – 1828

A maja desnuda

Os dois quadros de Goya conhecidos com o título de As Majas justificam plenamente, pelos valores absolutos que encerram, a sua enorme popularidade. Goya compraz-se em apresentar-nos o protótipo da madrilena dos seus tempos e não se deixa intimidar pela ousada pose dos braços, da qual, pelo contrário, desfruta, para dar maior relevo às formas do busto juvenil. A esbelteza da cintura acentua o carácter de vivacidade madrilena das duas figuras É justo falar de figuras ou de “majas” no plural, mas também no singular, já que o modelo da “maja” vestida é uma rapariga de elevada estatura, bem lançada, enquanto na “maja” nua, Goya retrata o protótipo da madrilena pequenina, de figura miúda mas perfeita. Se, portanto, com base na conhecida história, queremos ver na duquesa de Alba, tão admirada por Goya, uma das duas “majas”, devemos escolher a “maja” vestida”, e não a nua, uma vez que conhecemos bem, através do retrato que se encontra no palácio ducal, a figura esbelta da princesa.

A maja vestida

Parece, porém, muito mais provável que ambas as “majas” sejam de situar em aventuras amorosas do favorito Godoy, a quem pertenceram os dois quadros, como consta num documento de 1808. Além disso, Beroqui fez notar que Goya só se decidiria a pintar dois quadros tão audaciosos se fossem encomendados por uma personalidade influente. A lenda que os considera a ambos retratos da duquesa foi divulgada em 1845 por Viardot, na sua obra Museus da Europa.
As duas “majas” não passaram despercebidas junto do Santo Ofício da Inquisição, e o mesmo Baroqui tornou conhecida a ordem comunicada pelo depositário geral dos Sequestros, datada de 22 de Novembro de 1814, em que se prescrevia a entrega à Inquisição da Corte e ao secretário de quatro pinturas “obscenas” pertencentes a Godoy: “Uma delas representa uma mulher nua na cama…” E dá-se também ordem a Godoy para “se apresentar pessoalmente…” Não se sabe, pelo contrário, de que modo se resolveu depois a questão.
Para que não faltasse à lenda um pouquinho de truculência, o sobrinho de Goya comunicou a D. Pedro Madrazo, conservador do Prado, a notícia de que as duas “majas” retratam a amante de um tal padre Bavi, por alcunha o Agonizante, que acabou depois na forca por tê-la assassinado.
Numa avaliação comparativa das duas telas, uns admiram principalmente a ampla fractura e a beleza colorística da Maja vestida, enquanto outros preferem a delicadeza formal da Maja nua, que Sanchez Cantón justamente comparou à Vénus de Cirene, do Museu das Termas, em Roma.
No inventário de Godoy, as “majas” estão catalogadas como ciganas.
A sua influência na pintura moderna, e em essencial nos nus de Manet e Renoir, é evidente.

Cfr. Marco Valsecchi
In, Grandes Museus do Mundo
Ed. Verbo – Novembro/1973

08 novembro 2007

No Centenário de Flávio Resende

É o Departamento de Biologia Vegetal
da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa
que, comemorando os seus 25 anos, nos convida a assistir a uma conferência do
Professor Fernando Catarino,
subordinada ao tema
"No Centenário de Flávio Resende".

Amanhã, 9 de Novembro, pelas 15 horas, no Anfiteatro 3.2.14 da FCUL.

Flávio Resende foi Professor Catedrático da FCUL, de 1943 a 1967, e ali exerceu as funções de Director da Secção de Botânica e Director do Jardim Botânico
Nasceu em Cinfães, em 27 de Janeiro de 1907 e morreu a 1 de Janeiro de 1967, celebrando-se este ano o Centenário do seu nascimento.

Flávio Resende será lembrado não só como
investigador dedicado e inovador,
mas também como
um homem íntegro.

O que se fazia em Castelo Branco...

Em 1952.
Em 4 de Novembro
Treinámos hóquei em patins em casa do Morão (Domingos?)
Uma equipa com três jogadores contra outra com cinco...
Há uma explicação! O Luís e o Júlio eram dois jogadores extraordinários...
Na 1ªEquipa: jj (na baliza), Luis Grilo e Júlio Casaleiro
Na 2ªEquipa: Roque, Morão, Veríssimo, Boléu e Ernesto Casaleiro
Resultado 10-3!
.
Em 4 de Novembro

À tardinha, houve um julgamento de dois caloiros.
A Sala do Tribunal foi em casa do António Ascensão
O Juiz foi o António Ascensão.
Os advogados de acusação foram o Vitor "Saludes" e Júlio Casaleiro
A defesa esteve a cargo do Manuel Boléu
Desempenharam o papel de Jurados o jj e Amândio Robalo.
O Oficial de diligências era o Ilídio da Mesquita Nunes.
Os Réus eram o Ratinho e José Manuel Manzarra que se sentaram num penico que fazia as vezes de "banco dos réus"...
Penas aplicadas aos réus:
Sete tesouradas nos caracóis do Ratinho e impedimento de sair hoje.
O Manzarra foi impedido de sair só na próxima 6ªfeira.
.
Em 4 de Novembro

neste mesmo dia depois do jantar,reuniram-se, no Chafariz da Mina, mais de 100 alunos dos 6º e 7º anos do Liceu e do Instituto de Santo António. Ali foram aprovados os Estatutos da Academia que, a partir da 2ªfeira, exercerá a praxe. Terminado o acto voltámos em magote para cima, até aos cafés onde dispersámos.
(aconteceu então uma discussão em que participou o João Ramos do Isa que, com uns copos a mais, chegou a empunhar uma navalha para o António Tavares... Imediatamente sanado este incidente!)
.
Foi um dia 4 de Novembro cheio de acontecimentos!
Fez há dias 55 anos...

07 novembro 2007

Setubalense - 1953 - Janeiro

07-01-1953
Câmara Municipal de Setúbal
Nova Distribuição de Pelouros.
Presidente - Secretaria, Tesouraria e Obras Públicas
Guilherme Faria - Cultura, Biblioteca e Jardins
Francisco Maria da Silva - Mercados e Matadouro
Manuel Xavier Santos Jacob - Salv. Pública e Higiene e Limpeza
Dr.José Cardoso Ferreira - Turismo
Joaquim Oliveira - Assuntos de Azeitão.
José Narciso Freitas - Compras, Leite, Aferições e Cadeia.
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O Conselho de Administração dos Serviços Municipalizados de Setúbal continuava a ser gerido pelo sr. Presidente da Câmara, pelo sr. Guilherme Faria e pelo sr. Mário Ascenção Lêdo.
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O Conselho de Administração do Orfanato "Presidente Sidónio Pais" é constituído pelos srs. Dr.Miguel Greck Torres, que é presidente, Manuel Xavier dos Santos Jacob e Alfredo Figueiredo da Silva, que são vogais.
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07-01-1953
Notícias Pessoais
Rui de Oliveira tomou posse do lugar de copista do Tribunal de Trabalho.

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07-01-1953
Orçamento Camarário
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Turismo
Receita . . . . . . . . . . . . 266.346,00
Despesa ordinária . . . . 236.346,00
Despesa extraordinária. . 30.000,00
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Câmara
Receita ordinária . . . . . . . .8.143.503,60
Receita extraordinária . . . . 1.902.452,80
Total . . . . . . . . . . . . . . . 10.045.956,40
.
Despesa ordinária . . . . . . . .7.964.076,40
Despesa extraordinária . . . . 2.081.880,00
Total . . . . . . . . . . . . . . . 10.045.956,40
.
10-01-1953
Vitória F.C.
Os sócios do Vitória F.C.elegeram os novos Corpos Gerentes.

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Assembleia-Geral
Presidente - Dr.José Guilherme de Melo e Castro
V. Presidente - Augusto César Lopes Pedrosa
1ºSecretár - Eduardo Machado Pinto
2ºSecretár - Alberto Gonçalves Mendes

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Direcção
Presidente - Mário Lêdo
V. Presidente - Ten. Ernesto Carrilho do Rosário
1ºSecretár - Joaquim Valério Machado Pereira
2ºSecretár - Rui Viegas Godinho
Tesoureiro - José Maria Narciso Ferreira Freitas
1ºVogal - José Alves
2ºVogal - Aníbal Mendes
Suplentes - Luciano Angelo Rouillé
……………….. José da Conceição Fernandes
………………...Domingos Carrilho do Rosário
………………….Justiniano Pereira

Conselho Fiscal
Presidente - Manuel Xavier dos Santos Jacob
Relator - Armando Guerra
Vogal - Artur Rocha Celorico
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24-01-1953
Associações
Eleição dos Corpos Gerentes do Grémio do Comércio

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Assembleia-Geral
Presidente - José Veríssimo Abrantes
V. Presidente - António Almeida Alves
Secretário - António Henriques de Oliveira

.
Direcção
Presidente - Manuel José de Goes
V. Presidente - Rogério de Sousa
Tesoureiro - Marcelino Pais Cabral
Suplentes...- Manuel Palmela
…………………… Leopoldo Santos
…………………….Joaquim Pires Bárbara
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28-01-1953
Mocidade Portuguesa - Provas finais
Foram considerados "Aptos", no Curso de Chefes de Quina, Rui Machete, António Adão e Carlos Machado, e "Muito Aptos", Nelson Neto e Luciano Neves
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06 novembro 2007

Uma exposição de Pintura...



Com o patrocínio da Câmara Municipal, a madrilena Maria Luísa Sanz teve uma Exposição em Castelo Branco, na Sala da Nora, entre o dia 25 de Outubro e 2 de Novembro.

Passei por acaso, e a horas “impróprias”, junto da Sala da Nora… Como a vi iluminada, resolvi entrar!
Apesar de ser feriado, apesar de estarmos num fim de semana enorme, apesar do momento, próximo da hora do jantar, não ser o mais propício para apreciar arte, apesar de estarmos nas vésperas do último dia da exposição… eu estive longe de estar sozinho naquela Sala.
E o que vi agradou-me!

"Sono qui per te"

A apresentação da pintora ficou a cargo de Elena Santiago que, sobre ela, escreveu:
Maria Luísa Sanz é sem dúvida uma das personalidades mais sólidas, coerentes e brilhantes do panorama artístico espanhol. A sua trajectória é muito longa e os campos que abarca muito variados: pintura, obra gráfica, desenho de moda, de jóias e de todo o tipo de objectos que a sua imaginação pode conceber."
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"Zapatos rojos"

"Com uma formação artística muito rigorosa, tanto as suas pinturas como a s suas gravuras revelam um extraordinário domínio do desenho, da composição e da cor, as três premissas fundamentais para que uma obra seja realmente consistente. Se se olham com vagar para além, aparentemente despreocupada e cheia de imaginação das imagens que projecta sobre a tela ou o papel, há uma sabedoria, um profissionalismo e uma sensibilidade de primeira ordem. Por outro lado, a curiosidade sem limites de Maria Luísa Sanz leva-a a estudar continuamente e a investigar as possibilidades de novos materiais e técnicas, o que faz com que as suas obras, sendo absolutamente pessoais, sejam sempre diferentes."
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"It's too late"

"A descoberta desta exposição é um convite ao visitante para que participe e penetre num mundo tão pessoal de artista, um mundo em que aparecem mulheres maravilhosas e perversas inspiradas nos comics americanos dos anos 30 e 40 (cujo look, por certo, volta a ser moda), vestidas por refinados desenhos de tecidos que lhes servem de fundo ou pelas suas armas de destruição maciça: os sapatos de tacão altíssimo, lápis de olhos e de lábios ou longos colares e jóias que Maria Luísa desenha actualmente."
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"Chica en azul"

"Maria Luísa Sanz domina a técnica. Nas obras expostas há águas fortes, serigrafias e combinação de água forte e colagens. Em todos os casos tirou o melhor partido de cada uma delas paro obter diferentes efeitos, texturas e transparências. A isto há que acrescentar em todos os casos uma impecável estampagem, fundamental para o resultado final da obra e que se realizou nos melhores ateliers da especialidade."
Elena Santiago (Bib. Naciomal de Madrid)

05 novembro 2007

Deixem os professores em paz

Este princípio de Novembro, todos os anos me altera os hábitos de leitura.
A deslocação que me leva, por esta altura, a Castelo Branco não me dá tempo para pôr a leitura em dia… No regresso, é quando recupero como se esta leitura fosse um “tpc”… que ficou por fazer…


M.Filomena Mónica 1960 (?)
(foto de Carlos Braancamp Freire Pinto Coelho)

Sempre que se lembra de escrever as suas Crónicas, gosto de ler a Maria Filomena Mónica. E tanto mais, desde que soube que também ela, miúda ainda, em 1954… percorria as ruas, que eu próprio também pisava, ali próximo de S.Mamede e da Politécnica onde ia visitar, se não erro, uma avó que por ali vivia.
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É ela quem o diz...
Uma vez por semana, frequentava a missa na igreja situada no Largo de S.Mamede (até a minha mãe ter optado pela mais chique igreja do Loreto).
Por vezes, aventurávamo-nos pela rua da Escola Politécnica, onde, depois da comunhão, nos enchíamos de bolos na Alsaciana. Noutras ocasiões íamos até casa da minha avó, ao lado da igreja… " (cfr.BI memórias)
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Com dez ou onze anitos, quem sabe se não nos cruzamos por ali alguma vez… Por essa altura, a Alsaciana e a Cister era as minhas “salas de estudo”…

É do “Espaço Público”, do jornal “Público” saído no dia de Todos os Santos e a que Filomena Mónica deu o título “Deixem os professores em paz”, que retiro os “apontamentos” que aqui deixo hoje.
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“É fácil deitar a culpa dos males do ensino para cima dos professores.
Eu própria já o fiz, mas as coisas chegaram a um ponto que o ataque a esta classe, especialmente se vindo do ministério, é indecoroso.
Para se ser bom docente, são precisas três coisas:
uma sólida preparação de base,
prestígio junto da comunidade
e
autonomia de acção.
A isto pode juntar-se a paixão pelo que se lecciona, um ideal que nem todos podem atingir.”
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“ …Depois de lhes ter dado uma educação deficiente, de ter transformado a sua carreira num pesadelo, de lhes ter retirado a possibilidade de inovar, o Estado dá-se ao luxo de os olhar com desconfiança.”
( … )
“Com a evolução da sociedade portuguesa – e não o devemos lamentar – tudo isto mudou. Muitos dos alunos provêm agora de meios sócio-económicos baixos e são fruto de gerações de analfabetos. É com crianças educadas à base de telenovelas e de “saberes” aprendidos na rua que os professores têm de lidar. Como se isto não bastasse a escola é forçada a desempenhar funções que, em princípio, não lhe competiria, tais como cuidar de miúdas que engravidam aos 13 anos e de rapazes que consomem droga.”
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E, para terminar:
"Sem programas bem feitos, sem manuais decentes, sem incentivos para se actualizarem, a vida dos professores transformou-se num inferno."

04 novembro 2007

Visita a Belmonte

Belmonte

As lendas e as tradições...
...há muito, muito tempo,
o Castelo de Belmonte esteve cercado. A coragem e o valor dos belmontenses acrescentava-se dia a dia: defendiam as suas terras com a determinação de quem quer ser livre. Durante a noite o rufar do alarme crescia: olhos vigilantes atentos a ciladas, a fugas... cerceavam o inimigo. Travava-se uma luta de resistência com as armas poderosas da fome, do cansaço, da saudade da vida... Quem desistiria?
De um e de outro lado ouviam-se vozes que maldiziam a guerra. Gastavam o dia á espera de uma fraquesa daqui ou dalém...eles próprios enfraquecendo. E um manto de tristeza colava-se às gentes e terras, o coração pressago desenhava a amargura dos rostos.
Era um tempo sem tempo: media-se pelo desespero da espera de terminar o cerco, contar vencidos e vencedores.
Mas os chefes reinventavam estratégias e a luta prosseguia teimosa, obstinada, cega. Um dia a tragédia aconteceu. Olhos tresnoitados, esgotados, afrouxaram a vigilãncia. A filha dp alcaide do castelo brincava alegre e despreocupadamente. Como brincam todas as crianças. Alheada no mundo que era o seu, deixou que lhe pegassem ao colo. Estava tão habituada à ternura das gentes do castelo...Como reconhecer o inimigo? Homem igual aos outros...
Só depois temeu o passo apressado. Tremeu com o olhar frio. Assustou-se com o peso das mãos fortes que a aprisionavam. E chorou... Raptaram-na para moeda de troca:
-"A vida da tua filha está nas nossas mãos! Rende-te!" - gritava o inimigo.
-"Entregar o castelo? Nunca!" - repetia o alcaida, enlouquecido.
Não acreditava nas palavras que ouvia. A filha tinha desaparecido, era verdade. Mas quem seria capaz de sacrificar a vida de uma criança?
O coração segredava-lhe que o rapto era impossível , mas na cabeça faziam eco as palavras:
-"A vida da tua filho ou o castelo!"
Não houve rendição. Conta-se que o alcaide chorava de dia e de noite a sua menina desaparecida... A lenda garante que a ameaça do inimigo se cumpriu e que a "prensa" esculpida em pedra no pelouronho de Belmonte e na igreja de S.Tiago serviu de instrumento de tortura. Um sacrifício a que assistiram os que não cegaram de dor e de revolta. A Prensa, "Antigo Brasão do Concelho", símbolo do sofrimento de quantos resistiram na defesa do castelo.
Belmonte gravou na pedra e na memória dos homens o testemunho da crueldade da Guerra, um apelo permanenta à Paz.
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Belmonte é uma terra pequena mas alberga 4 Museus...


Uma planta legendada de Belmonte




Panteão dos Cabrais e Igreja de S.Tiago.




Chanukiah, candelabro de 9 braços



Conheci lagares mais antigos do que este...

...

Tem um interesse relativo. Refere-se à bacia do Zêzere.

Uma voz a ouvir...

José Miguel Júdice
In, “Espaço Público
Público, em 02.11.2007


( … )
Uma cultura de laxismo, de facilitismo, de falta de rigor, que recusa a disciplina e o trabalho, que nivela por baixo, serve os mais desfavorecidos ou prejudica-os?
A percepção dos jovens de que não precisam de se esforçar para passar de ano provoca uma tendência crescente para a diminuição do esforço, ou motiva os estudantes a trabalhar?

No mundo moderno basta a escolaridade formal para progredir ou, pelo contrário, os hábitos de trabalho e a aprendizagem real é que fazem a diferença?
Manter na escola os que não vão às aulas, não estudam, não aprendem e que ninguém castiga é bom para eles e para os que querem trabalhar?
Para os mais desfavorecidos (e com excepção do Euromilhões) existe algum meio mais eficaz de progresso do que uma escola pública de excelência?
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( … ) mas ela faz parte de um governo de esquerda, de um governo que tem de estar emocional e culturalmente forjado na luta pela qualidade e rigor do ensino público como instrumento de igualdade. Por isso é inconcebível o que diz, o que justifica, o que propõe. Como é incompreensível que se mantenha no governo

Incompetente...

“Ir ou não às aulas não deve ser relevante para a avaliação dos alunos.
Deve progredir na escola quem tiver notas positivas independentemente da assiduidade. (…) A avaliação deve incidir sobre o conhecimento: sabe, passa; não sabe, não passa.”
Maria de Lurdes Rodrigues dixit!
In, “Público”
02.11.2007
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Só falta fazer a apologia do explicador particular…
.
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“É diferente ter uma negativa em Novembro ou em Julho, como todos ( ! ) sabemos. Tem que se confiar nos professores que fazem o acompanhamento quotidiano dos seus alunos.”
Maria de Lurdes Rodrigues dixit!
In, “Público”
02.11.2007
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Mas como, Senhora Ministra?!...Se os alunos não vão às aulas… como se pode fazer esse acompanhamento?!
Ou será que V.Exª também pode “inventar” uma nova lei que permita aos “explicadores” participarem nos Conselhos de Turma?!...

03 novembro 2007

Esta manhã em...

Sortelha
O tempo continua muito bom e a convidar ao passeio...
Esta manhã, bem cedo voltei a sentir aquele frio seco tão presente na minha memória...
Há muito tempo que não o sentia...
Cedo ainda, entrámos em Sortelha, bem antes das vagas de turistas.


Logo à entrada, o solar e o castelo...


Entre a muralha e a vivenda um batólito erodido
.


Uma rua de Sortelha

Outra torre, outra vivenda, o mesmo batólito fracturado

jj e o Rui Versos numa foto do Pe.Gama

Que grande nariz tem esta "velha"...
.
... e em Belmonte.


Um recanto de Belmonte


O cruzeiro e o castelo de Belmonte


O Padre Gama e o Rui Versos fazem a guarda de honra a Cabral


Há em Belmonte um Museu do Azeite

RRecorde onde fica a Capinha, Sortelha e Belmonte

02 novembro 2007

Esta manhã na Capinha...

Estava um dia fresco mas cheio de sol...

Bem bonitas estas casas de granito.

A Igreja matriz da Capinha

Outra fachada bem concebida pela Junta de Freguesia

Um pormenor do edifício anterior

01 novembro 2007

National Gallery - Modigliani

Amadeo Modigliani
Livorno,1884 – Paris,1920
Cigana com menino

Cigana com menino

.
Chester Dale, durante muitos anos presidente da Galeria Nacional de Arte de Washington, até à sua morte em 1962, foi o principal artífice da popularidade de Modigliani junto do público americano. Foi sua mulher, Maud Dale, quem escreveu o primeiro livro em língua inglesa sobre esse artista. Os Dale começaram a adquirir quadros de Modigliani pouco depois de 1920 e continuaram até 1929. Esta sua predilecção explica a presença, na Galeria Nacional de Arte, de doze telas do artista, um número superior ao que tem qualquer outro museu. Esta tela representa a obra de Modigliani certamente mais conhecida na América. A anterior actividade do artista como escultor faz-se particularmente sentir no agrupamento piramidal dos volumes, com o qual se funde a herança clássica do helenismo, notória na expressão impessoal. Estas duas tradições conciliam-se com a composição curvilínea no “art nouveau”, no penetrante e pessoalíssimo fascínio do peculiar estilo de Modigliani.

By Hereward Lester Cooke
In “Grandes Museus do Mundo
Ed. Verbo – Setembro de 1973

31 outubro 2007

Escrito na pedra...

No "Público"
30.Out.2007

"Todas as mulheres sabem tudo sobre tudo."

Rudyard Kipling,
escritor britânico
1865-1936

As "Bonecas" de Jean Bellus

Eram muito "soft" as piadas
em Março de 1962
in. "Anedota Ilustrada"

- Ó Zé, diz-me uma coisa: se fosses inglês,
eras trabalhista ou conservador?!...

30 outubro 2007

Quem morava em Castelo Branco...

Na década de 40, quem morava na Praça Velha?...
.
No nº1 - r/c , era a loja de solas do Sr.Cândido Costa, no cunhal da rua de Santa Maria com a rua dos Cavaleiros.

No nº2 - r/c, era a oficina do Sr.Selé marceneiro, situado já no edifício do Solar do Dr. Mota

No nº4 - era a residência da Família Mota que ocupava todo o 1ºandar e o resto do primeiro
piso não ocupado pela oficina de marceneiro.

O palacete dos Motas vendo-se a seguir a porta que foi da loja das solas


No nº 6 - morava a Sr. Salavessa que era funcionário dos CTT e pai da Maria José e da Maria Emília Salavessa. Ocupavam o 1º e o 2º andares. É uma casa que faz esquina com a rua Nova e está actualmente num estado de degradação muito acentuado.

À esquerda a casa das "Salavessas" e, em frente, a casa do Dr.Roque

No nº9 - por cima do Arco do Bispo, viveu em 1940, a Família Nunes Roque que ocupava todos os pisos do edifício. O Dr. Roque foi durante algum tempo (anos?) professor no Instituto de Santo António, numa altura em que aquele Colégio era dirigido pelo o Dr. Vitor Santos Pinto, antes da sua ida para Coimbra.
O Dr. (Manfredo?) Nunes Roque vivia com a esposa, D. Maria Luisa e com os três
filhos, o mais velho Júlio, a Maria Luisa e a Mariazinha que era a mais nova. Saíram de Castelo Branco para regressar à região de Aveiro de onde eram originários. Se bem me lembro eram da aldeia de Barrô.

No nº12 – Vivia a Família Tavares e creio que ainda lá vive um dos descendentes, o Henrique Tavares. Ocupavam os dois pisos, r/c e
1º andar

A rua dos Ferreiros com a casa dos Tavares, à esquerda e a Loja do Sr. João Rosa à direita. A 1ªporta à direita é já do Sr. Monteiro.

No nº 13 - r/c, já no enfiamento da rua dos Ferreiros, havia a loja do Sr.João Rosa, uma mercearia “abastada” ( Não devemos esquecer que estávamos em plena 2ªGuerra, na Europa e uns anos antes, terminara a Guerra de Espanha; em toda esta zona da cidade de Castelo Branco havia muitos refugiados espanhóis a viverem abaixo da "linha de água"...) onde o azeite e o petróleo eram medidos numa máquina de manivela e embolo em que, prèviamente se marcava a quantidade desejada… Lembro muito bem dos grandes sacos de grão, de milho e das muitas qualidades de feijão que o Sr. João Rosa ali conseguia ter. Havia ainda uns recipientes-armários próprios para conter as farinhas, alvas de trigo e amarelas de milho: eram retiradas as quantidades desejadas com uma espécie de pá abaulada, para dentro dos cartuchos que o Sr.João Rosa fornecia ou dos taleigos que muitas clientes traziam já de casa...

Lembro-me também das várias medidas em madeira que se mergulhavam nos sacos para retirar os cereais e do rolo de madeira com o qual se rasava a medida… Vendiam-se ali, também, as barras de sabão que vinham em caixotes e eram cortadas com uma faca, à medida que se desejava, sendo depois pesada.
E, a propósito de facas… não posso agora esquecer a faca guilhotina própria para cortar o bacalhau que o Sr. João Rosa também conseguia arranjar naquela altura de crise e ali vendia. Estávamos na altura das senhas do racionamento...

No nº 13 – 1º, por cima da mercearia, viveu, durante muito tempo, o sr.Morão que tinha uma ourivesaria no Largo da Sé e trabalhava com o irmão Alberto, um homem baixote que lhe sobreviveu bastante tempo, e que eu não me lembro de ter visto alguma vez mal disposto! Jogava muito bem o bilhar...
Recordo bem a D. Carolina Morão e a filha Raquel, que era a mais velha das duas que tinham.
Uns anos mais tarde. o prédio onde viviam transformou-se num Lar Feminino da Mocidade Portuguesa onde se fizeram algumas serenatas inesquecíveis.

No nº15, na casa que já faz esquina com a rua do Relógio, morava o Sr.Monteiro que eu sempre conheci já velho... Vivia no
primeiro andar com duas senhoras que, creio, eram suas filhas. A loja da r/c de que ele era o proprietário, já não sei o que vendia… Só me lembro que era lá que nós íamos comprar os rebuçados que traziam os “bonecos da colecção” que vinham numa grande caixa de lata, cúbica, e na qual só metia o “mais custoso” (que era uma figura em papel igual a todas as outras mas que tinha um carimbo nas costas que o identificava como único…) quando a caixa estava quase no fim! Nunca me saiu como prémio, a bola de futebol tão ambicionada…

O prédio seguinte era a Cadeia que a partir de 1950 (?) serviu de Biblioteca.

Nesta altura já não era Cadeia... (17.05.2006)

Para fechar o circuito, falta referir o Celeiro da Casa Abrunhosa (?) no local onde é hoje o Restaurante “Praça Velha”

O Restaurante que já foi Celeiro (foto de 17.05.2006)

29 outubro 2007

Beira Baixa - Notícias de 1954 - Fev/Março

06.02.1954
Casamento elegante
No passado dia 30, uniram-se pelos sagrados laços do matrimónio, em Idanha-a-Nova, a Srª D. Maria Rita Folgado da Silveira com o Sr. Augusto Barbosa Marçal Grilo.

20.02.1954
Montepio de Castelo Branco

Assembleia-Geral:
Presidente: Alberto da Silva Nogueira Selé
Vice-Presidente: Lúcio Ribeiro Costa
Secretário: João José Pinto Duarte
Secretário: João dos Santos Prata

Direcção Administrativa
Presidente: António Lourenço da Cruz
Secretário: António Nunes Garrido
Tesoureiro: Nuno da Cunha Navarro
Vogal: António Martins (Carralo)
Vogal: José Luis Sequeira

Conselho Fiscal
Presidente: Hermenegildo dos Santos Taborda
Vogal: José Casimiro
Vogal: Francisco Martins


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06.03.1954
Novo Estabelecimento
Castelo Branco conta desde sábado último, com mais um modelar estabelecimento comercial. Pertence ao Sr. Lúcio Ribeiro Costa e está instalado na rua do Rei D. Diniz (antiga Pá Queixada)
Tudo disposto com arte, com elegância, com elevado gosto.
Tal como os da firma José António Grilo, Filho, Lda. e o Sr. Adelino Semedo, este novo estabelecimento honra o seu proprietário e a cidade.

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06.03.1954
Concerto Pró Arte
Foi um êxito a apresentação de Elsa Wlebanowsky em Castelo Branco, no 2ºConcerto desta temporada.

13.03.1954

Futebol
No passado dia 25 de Fevereiro, tomaram posse os novos Corpos Gerentes do Sport Benfica e Castelo Branco

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Assembleia-Geral:
José Pedro Cordas (Eng.)
Direcção
Cap. Manuel de Jesus Correia
Conselho Fiscal
Severino Martinho
Conselho Técnico
Tenente Pinheiro

28 outubro 2007

Hoje, no Público...

No “Público” hoje
JMFernandes
28.10.2007
.
Respigos de um Editorial

“…já Marçal Grilo escreveria depois um livro…”Difícil é sentá-los” onde terá percebido, ao escolher para título o desabafo que captara ao falar com um professor de ensino básico, onde começam os problemas de muitas escolas.
.
(…)
A leitura desse livro talvez tivesse evitado o disparate que a maioria socialista impôs esta semana, ao aprovar alterações a um já de si muito disparatado Estatuto do Aluno.
Supostamente o objectivo desse documento é dar mais instrumentos aos professores para estes imporem uma disciplina na escola e dentro da sala de aula, mas lendo o documento fica-se aterrado
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(…)
Quando as condições em que se envia um aluno para a rua durante uma aula passam a ser estabelecidas por lei, ninguém deverá surpreender-se que um dia destes actos tão banais como esse acabem nalgum tribunal e com o professor no banco dos réus.
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(…)
…e incomoda pela insensatez: se há domínio em que valem muito mais as regras não escritas, a cultura de disciplina e exigência, o bom senso e a capacidade de liderança, esse domínio é o da disciplina nas escolas. Dar ao que devia decorrer do bom senso ou da autoridade natural a forma de uma lei geral para todas as escolas e todos os professores é do domínio do surrealismo.
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(…)
Diz o ministério que se quer, desta forma, impedir que saiam muitos alunos do sistema, que as escolas percam estudantes, o que é sempre negativo. E de facto é. Mas não é menos negativo dar àqueles que faltam por sistema, que ficam a jogar à bola ou a fazer patifarias quando os colegas estão nas aulas o prémio de poderem “recuperar” através de uma prova cujos termos são muito nebulosos
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(…)
…por mais voltas que se dê à cabeça, só se encontra uma justificação plausível para esta medida: o Governo comprometeu-se com um determinado objectivo no que respeita ao abandono escolar e, estando-se muito longe da meta, o “atalho” de permitir a passagem de alunos que, mesmo não indo às aulas, “continuam” na escola pode resultar numa excelente estatística.
Se não é essa a ideia, então cabe à equipa ministerial explicar muito melhor qual o objectivo da medida.”
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Vamos esperar pela explicação?!... ou nem isso as “sumidades” serão capazes de fazer direito?...

Eles foram meus professores...

Ano lectivo de 1954/55

Morfologia e Fisiologia Vegetais
cadeira do 2ºano do Curso de Ciências Biológicas
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Flávio Resende

Prof. Flávio Teixeira Pinto Resende

Foi o meu melhor Professor! E um exemplo para todos nós…
Parece-me que, assim, fica tudo dito a respeito de Flávio Resende

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Sabedor, humano, amigo a quem respeitávamos, não com o medo que muitas vezes se interpunha entre professor e aluno, mas pelo exemplo que era, para nós, como cientista honesto, cidadão impoluto e, ele próprio, sem medo do ambiente politico que nas universidades se vivia por aqueles tempos…

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Numa entrevista que , em 13 de Janeiro deste ano, concedeu a Clara Pinto Correia, Fernando Catarino referiu-se ao Professor Flávio Resende dizendo:
Foi excepcional. E era militantemente optimista, sempre convicto de que se podem melhorar as coisas. Conhecia o Eça de cor e era raro o dia em que não o citava, a propósito do nosso modo caricato de ser, viver e estar. Foi atingido por aquela leva de purgas dos professores universitários que Salazar fez em 47, e nunca baixou os braços. Muitos dos atingidos tinham, de facto, envolvimentos políticos. Este só tinha liberdade de pensar e dom da palavra, e nunca se levava, a si próprio, muito à sério a não ser nas questões morais”.

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Um pouco adiante, o Prof. Catarino contava uma pequena história que diz bem da formação moral de Flávio Resende:
Quando Resende veio para o Jardim Botânico, em 1944, existiam 23 famílias a viver dentro do Jardim Botânico em casas degradadas, em condições miseráveis. Eram técnicos da faculdade que iam trazendo a família. Os jardineiros andavam de roupa remendada, praticamente descalços, de alpergatas rotas, e falavam com ele a medo, de olhos baixos e de chapéu na mão. Ele mandou logo comprar botas para toda a gente. Passados uns meses o encarregado veio queixar-se de que os jardineiros diziam que as botas estavam apertadas. E ele, logo: fantástico! Já são homens! Com melhores condições de vida já eram capazes de exigir, de refilar - isso é um homem. Quando nós vivemos no meio da chafurdice, deixamos de dar por isso…”
“(Os professores naquele tempo)…eram homens cultos. E preocupavam-se com o mal-estar físico dos pobres.”

O aluno Fernando Catarino com Flávio Resende
na AEFCL – Semana da Biologia/1958

Flávio Resende foi meu professor no 2ºsemestre de 1954/55, quando regeu a cadeira do 2ºAno, “Morfologia e Fisiologia Vegetais”. A parte de Fisiologia Vegetal esteve a cargo de Pinto Lopes durante o 1ºPeríodo. O Prof. Resende não estaria em Portugal no início do ano lectivo e as matérias de Fisiologia foram entregues ao seu Assistente.
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Foi um professor excepcional! Sabedor, cientificamente sério e de qualidades humanas sem comparação… Era exigente e os seus alunos viam-se obrigados a estudar e a “prestar provas”…
A cadeira que com ele fiz em Lisboa deu-me as bases suficientes quando em 1956 me matriculei em “Biologia”, cadeira do último ano, na Universidade do Porto. Fui considerado um “crack” pela simples razão de, naquela Faculdade de Ciências, o Professor Cabral Resende Pinto ter escolhido um programa quase idêntico ao que se dava em “Morfologia e Fisiologia”, em Lisboa.
Naquela época, em 1956, falar em Cariocinese, falar em Metafase e Anafase, falar em Leptóteno ou Zigóteno… era complicado! Flávio Resende tinha publicado há pouco tempo um trabalho sobre Mitose que foi colocado na Secção de Folhas da Associação de Estudantes. Esse livro foi uma "bíblia"...Também não nos devemos esquecer que foi em meados de 1953 que Krick e Watson falaram pela primeira vez na estrutura do DNA…

Nas aulas práticas, tínhamos aprendido muito bem, com o Prof. Resende, a distinguir sem grandes dificuldades, no campo do microscópio, as várias fases e estádios da Mitose.
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Para meu espanto, numa das primeiras aulas práticas com o Resende Pinto, dei comigo a falar sozinho com ele a respeito da divisão nuclear… com todo o resto da turma ouvindo em silêncio!... E o Professor espantado com a “desenvoltura” de um aluno que ele não conhecia dos anos anteriores...
Ficou tudo esclarecido quando ele perguntou com aquele ar de “fera” que sempre cultivou:

Como é que você veio parar aqui?! De onde é que você caiu?...”
Lá lhe expliquei que estudara em Lisboa nos anos anteriores e já fizera a cadeira de “Morfologia e Fisiologia Vegetais” onde se tinha de estudar toda a matéria que ali estava a ser dada, numa cadeira do último ano!
E quem foi o seu Professor?” insistiu a “Fera do Instituto Botânico”…
O meu Professor de Morfologia e Fisiologia chamava-se Flávio Resende…” respondi de seguida.
Só podia ser!!” volveu o Professor...
Só então soube que estes dois “Resendes” que se cruzaram comigo naquela época, eram “primos entre si”…
Dei-me bem com ambos e “brilhei” com o segundo… com aquilo que me havia ensinado o primeiro!

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Numa entrevista conduzida por Nuno Campos, a Profª Maria Salomé Soares Pais proferiu as palavras que refiro em seguida, depois de lhe ter sido perguntado se houve algum professor que a tivesse marcado especialmente:
Sem dúvida. O Prof. Flávio Resende, em cujas aulas não era possível tirar um único apontamento, porque ele, tendo um raciocínio brilhante, saltava de um tema para outro com um entusiasmo fantástico. Dava as aulas como uma conversa. O Prof. Resende era um imaginador, ele levantava hipóteses, imaginando soluções para as questões.
Esta atitude é essencial em investigação
.”

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No Verão de 1966, numa deslocação que com o meu colega António Maurício fizemos à Faculdade, encontrámos o Professor no Jardim Botânico, ali mesmo ao pé da “Ficus elastica”, nas imediações do sector da Botânica… E foi ali mesmo que conversámos com ele durante bastante tempo… Gostava de ver e de falar com os seus antigos alunos…
“Onde estão”… “O que fazem?”... “Como vos corre a vida?”...

Estas coisas que se dizem naturalmente quando se encontram antigos alunos…
“Estamos ambos em Setúbal, no Liceu…” , “Fizemos já o estágio no Pedro Nunes…”, “As coisas vão correndo… mais ou menos…”

Estas conversas que se têm e agradam a quem foi um dos “responsáveis” pelo trajecto que ambos estávamos a percorrer.
Durante a nossa conversa ele não deixou de fumar… cigarro atrás de cigarro! E não deixou de tossir…
Eu tinha deixado de fumar há um ano, em Agosto de 1965 , e sentia-me com “força moral” suficiente para lhe dizer que não devia fumar tanto… Nunca mais esqueci a resposta que nos deu sobre esse assunto!
Dizem, embora não esteja suficientemente provado, que o tabaco pode estar na origem de um cancro… Com a idade que tenho não vou ligar muito a isso! E se o cancro vier o que é que eu poderei fazer?!” Palavras ditas com aquele ar de quem é “militantemente optimista, sempre convicto de que se podem melhorar as coisas…”
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Passados alguns meses Flávio Resende falecia, na passagem de 1966 para 1967… depois de lhe ter sido diagnosticado um cancro…

A Faculdade de Ciências perdia um Mestre. Os seus alunos perdiam um bom Amigo...

(fotos retiradas de "Memórias de Professores Cientistas"
sendo a primeira da autoria do Dr.Armando Bastos, obtida em 1965)

27 outubro 2007

As "bonecas" de Oziouls

Humor antigo
com o traço de
Oziouls

- É a única maneira de evitar que ele saia à noite para os "cabarets"...

26 outubro 2007

Liceu Nacional de Nun'Álvares

1945/46 ...... 1ºAno - Turma C


Escadaria e alpendrada.
Por aqui tínhamos acesso ao "ginásio"

Nesta foto podemos ver a porta do Salão que servia de Ginásio e uma janela do mesmo salão que se abria também para alpendrada. Era aqui que o Dr.Alberto Trindade nos dava aulas, muitas das quais, no pino do Inverno, se resumiam a nos deitarmos, cada um em seu banco comprido de ginástica, com o sobretudo vestido e os cachecóis bem aconchegados, com as "botifarras" calçadas, ouvindo a voz do "mestre" durante uma hora a pronunciar, indefenidamente, as palavras... "inspirar... expirar... inspirar... expirar..."


Localização do 1ºC, na planta do piso térreo

Ainda no piso térreo, por debaixo do "Ginásio" havia quatro ou cinco espaços, num dos quais, o situado mais à esquerda e com janelas para a rua Bartolomeu da Costa, tínhamos as aulas de Canto Coral.

Constituição da turma C, do 1ºAno, em 1945/46:
1 Afonso Abrantes Cardoso Albuquerque
2 Agostinho Duarte Belo
3 Amândio de Azevedo Robalo
4 António Campos Monteiro Romão
5 António Gomes Dias
6 António Maria Azevedo Gamas
7 António Morgado
8 António Santos Ramalho Eanes
9 Armando José Rocha Ribeiro
10 Armando Lourenço Rodrigues
11 Aristides da Fonte Alpendre
12 Augusto Martins Santos Bispo
13 Avelino Manso Facada
14 Carlos Gonçalves Martins
15 Fernando Luis Antunes Milheiro
16 Francisco Pereira Martins Lino
17 Francisco dos Reis Ribeiro
18 Francisco dos Santos Leitão
19 João Esteves Lopes Rolo
20 João Luis da Silva Rêma
21 João Maria Cerejo Goulão
22 João Pires Estrela
23 João Cardoso Ribeiro
24 João Simão
25 Joaquim Belo Rafael
26 Joaquim Chito Rodrigues
27 José Amaral Branco dos Santos
28 José Geraldes Pereira Carvalho
29 José Maria Lopes
30 José Fernandes Carrilho
31 José Ribeiro dos Santos
32 Marcelo Heitor Moreira
33 Mário Fonseca Tonel
34 Mário de Oliveira Pires
35 Rui Geraldes Carrondo
36 Rui Nunes Barata

Não vejo o Afonso de Albuquerque há 61 anos! Era filho do Dr. Albuquerque, então professor de Física no Liceu, que no ano seguinte rumou a outra cidade. A figura do Afonso ficou, no entanto, gravada na minha memória… e de tal modo que, aqui há uns anos, o “redescobri”, já homem de sessenta anos, numa intervenção televisiva, onde foi chamado a “debitar conhecimentos” na área em que é Mestre. É um psiquiatra ilustre e muito respeitado.

O Amândio Robalo, do Juncal, é um Clínico emérito, creio que na área da oftalmologia.
O Tó Romão foi professor de História no Colégio Militar.
O António Morgado fez vida na área das Finanças
O António Ramalho… deu no que deu! Não se podia esperar mais…
O Aristides Alpendre é médico aqui em Setúbal.
O Armando Lourenço e o Reis Ribeiro fizeram vida em África mas já regressaram.
O Francisco Leitão, da Póvoa de Rio de Moinhos, fez carreira na Tap
O João Maria Goulão é médico no Porto (Matosinhos?)
O Chito Rodrigues também é General (esta turma deu dois!)
O Zé Amaral e o Armando Rocha foram bancários
O Mário (Ginja) Tonel, o Mário Pires e o Rui Carrondo não sei por onde param… mas não estão esquecidos.
Pode ser que possam agora comunicar e dizer-nos o que foi feito deles!

Em 3 de Maio de 1946, todos estes alunos "fizeram as malas" e mudaram da casa...

Esta foi a nossa nova moradia...
(numa fotografia da época)