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27 abril 2013

A noite é muito escura...

... um poema de
Alberto Caeiro
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Alberto Caeiro


É noite.
A noite é muito escura. Numa casa a uma grande distância
Brilha a luz duma janela.
Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça.
É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora, e que não sei quem é,
Atrai-me só por essa luz vista de longe.
Sem dúvida que a vida dele é real e ele tem cara, gestos, família e profissão.

Mas agora só me importa a luz da janela dele.
Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
A luz é a realidade imediata para mim.
Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.
Se eu, de onde estou, só veio aquela luz,
Em relação à distância onde estou há só aquela luz.
O homem e a família dele são reais do lado de lá da janela.
Eu estou do lado de cá, a uma grande distância.
A luz apagou-se.
Que me importa que o homem continue a existir?

Alberto Caeiro,

in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa

24 abril 2013

Solidão...

... um poema atribuído a Francisco Buarque de Holanda

Francisco Buarque de Holanda.
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Solidão

Solidão não é a falta de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo... Isto é Carência.

Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de... entes queridos que não podem mais voltar...
Isto é Saudade.

Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às vezes, para realinhar os pensamentos...
Isto é Equilíbrio.

Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe compulsoriamente para que revejamos a nossa vida. 
Isto é um princípio da natureza.

Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado...
Isto é Circunstância.

Solidão é muito mais do que isto.

Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma...

Francisco Buarque de Holanda