03 dezembro 2016

São quadras, meu bem... são quadras!...

"Como um verso de bolero..."
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Foi um sonho o que sonhei
Quando te vi, acordado...
Teus olhos e o teu sorriso
não são "Coisas do passado"...                 
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Bolero cantado Angela Maria
da autoria de Renato César

02 dezembro 2016

Humor antigo...

in. "Anedota Ilustrada"8
de Maio de 1961

com o traço de Kiraz
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- Quer fazer o favor de me ajudar a levar 
os embrulhos e o meu marido para o carro?!

01 dezembro 2016

Uma crónica de Ruth Manus...

...que a autora intitulou como
"Coisas que o mundo inteiro deveria 
aprender com Portugal"

Publicado em 26/11/2016
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Ruth Manus
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Portugal é um país muito mais equilibrado do que a média e é muito maior do que parece. Acho que o mundo seria melhor se fosse um pouquinho mais parecido com Portugal.

Dentre as coisas que mais detesto, duas podem ser destacadas: ingratidão e pessimismo. Sou incuravelmente grata e otimista e, comemorando quase 2 anos em Lisboa, sinto que devo a Portugal o reconhecimento de coisas incríveis que existem aqui- embora pareça-me que muitos nem percebam.

Não estou dizendo que Portugal seja perfeito. Nenhum lugar é. Nem os portugueses são, nem os brasileiros, nem os alemães, nem ninguém. Mas para olharmos defeitos e pontos negativos basta abrir qualquer jornal, como fazemos diariamente. Mas acredito que Portugal tenha certas características nas quais o mundo inteiro deveria inspirar-se.

Para começo de conversa, o mundo deveria aprender a cozinhar com os portugueses. Os franceses aprenderiam que aqueles pratos com porções minúsculas não alegram ninguém. Os alemães descobririam outros acompanhamentos além da batata. Os ingleses aprenderiam tudo do zero. Bacalhau e pastel de nata? Não. Estamos falando de muito mais. Arroz de pato, arroz de polvo, alheira, peixe fresco grelhado, ameijoas, plumas de porco preto, grelos salteados, arroz de tomate, baba de camelo, arroz doce, bolo de bolacha, ovos moles.

Mais do que isso, o mundo deveria aprender a se relacionar com a terra como os portugueses se relacionam. Conhecer a época das cerejas, das castanhas e da vindima. Saber que o porco é alentejano, que o vinho é do douro. Talvez o pequeno território permita que os portugueses conheçam melhor o trajeto dos alimentos até a sua mesa, diferente do que ocorre, por exemplo, no Brasil.

O mundo deveria saber ligar a terra à família e à história como os portugueses. A história da quinta do avô, as origens trasmontanas da família, as receitas típicas da aldeia onde nasceu a avó. O mundo não deveria deixar o passado escoar tão rapidamente por entre os dedos. E se alguns dizem que Portugal vive do passado, eu tenho certeza de que é isso o que os faz ter raízes tão fundas e fortes.

O mundo deveria ter o balanço entre a rigidez e a afeto que têm os portugueses.

De nada adiantam a simpatia e o carisma brasileiros se eles nos impedem de agir com a seriedade e a firmeza que determinados assuntos exigem. O deputado Jair Bolsonaro, que defende ideias piores que as de Donald Trump, emergiu como piada e hoje se fortalece como descuido no nosso cenário político. Nem Bolsonaro nem Trump passariam em Portugal. Os portugueses- de direita ou de esquerda- não riem desse tipo de figura, nem permitem que elas floresçam.

Ao mesmo tempo, de nada adianta o rigor japonês que acaba em suicídio, nem a frieza nórdica que resulta na ausência de vínculos. Os portugueses são dos poucos povos que sabem dosar rigidez e afeto, acidez e doçura, buscando sempre a medida correta de cada elemento, ainda que de forma inconsciente.

Todo país do mundo deveria ter uma data como o 25 de abril para celebrar. Se o Brasil tivesse definido uma data para celebrar o fim da ditadura, talvez não observássemos com tanta dor a fragilidade da nossa democracia. Todo país deveria fixar o que é passado e o que é futuro através de datas como essa.

Todo idioma deveria carregar afeto nas palavras corriqueiras como o português de Portugal carrega. Gosto de ser chamada de miúda. Gosto de ver os meninos brincando e ouvir seus pais chama-los carinhosamente de putos. Gosto do uso constante de diminutivos. Gosto de ouvir “magoei-te?” quando alguém pisa no meu pé. Gosto do uso das palavras de forma doce.

O mundo deveria aprender a ter modéstia como os portugueses - embora os portugueses devessem ter mais orgulho desse país do que costumam ter. Portugal usa suas melhores características para aproximar as pessoas, não para afastá-las. A arrogância que impera em tantos países europeus, passa bem longe dos portugueses.

O mundo deveria saber olhar para dentro e para fora como Portugal sabe. Portugal não vive centrado em si próprio como fazem os franceses e os norte americanos. Por outro lado, não ignora importantes questões internas, priorizando o que vem de fora, como ocorre com tantos países colonizados.

Portugal é um país muito mais equilibrado do que a média e é muito maior do que parece. Acho que o mundo seria melhor se fosse um pouquinho mais parecido com Portugal. Essa sorte, pelo menos, nós brasileiros tivemos.
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Ruth Manus é advogada e professora universitária 
e assina um blogue no Estado de São Paulo, "Retratos e relatos do cotidiano"

30 novembro 2016

Nas trevas beijo visões...

... num belo poema a que o autor 
Antero de Quental
deu o nome de
"Uma amiga"
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Antero de Quental
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Uma amiga
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Aqueles que eu amei, não sei que vento
Os dispersou no mundo, que os não vejo...
Estendo os braços e nas trevas beijo
Visões que a noite evoca o sentimento...
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Outros me causam mais cruel tormento
Que a saudade dos mortos... que eu invejo...
Passam por mim... mas como que tem pejo
Da minha soledade e abatimento!
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Daquela primavera venturosa
Não resta uma flor só, uma só rosa...
Tudo o vento varreu, queimou o gelo!
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Tu só foste fiel - tu, como dantes,
Inda volves teus olhos radiantes...
Para ver meu mal... e escarnecê-lo!
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Antero de Quental
1842 - 1891 

29 novembro 2016

A moeda das Colchas de Castelo Branco...

...da Isabel Carriço e e do Fernando Branco voltou a dar que falar!...
Desta vez, foi atribuído à "Imprensa Nacional - Casa da Moeda"
o Diploma de Honra pela Melhor Moeda de Oiro, do mundo em 2015,
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Mais uma vez os parabéns para o casal de escultores

28 novembro 2016

Faleceu o Arlindo de Carvalho..

... e dele me recordo quando, em 1952/53, ele vinha da Soalheira, com alguma frequência, para tomar café ao Arcádia, com um saudoso grupo de finalistas do 7º ano, no Liceu de Castelo Branco, que ali se reunia depois do jantar. Muitas vezes não resistia quando lhe pedíamos para cantar alguma das suas bonitas canções... Já lá vão 64 anos...
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O maestro Arlindo de Carvalho
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"O compositor e maestro Arlindo de Carvalho, autor de êxitos como "Chapéu Preto" e "Fadinho Serrano", morreu aos 86 anos, no sábado às 23:00, num hospital de Lisboa.

Segundo fonte da família, o funeral realiza-se, em data a anunciar, na sua terra natal, a Soalheira, no concelho do Fundão, na Beira Baixa.

No passado mês de maio o compositor foi homenageado na Soalheira, onde se lhe ergueu um monumento.

Em 2011, Arlindo de Carvalho recebeu a Medalha de Honra da Sociedade Portuguesa de Autores, reconhecendo a sua valiosa obra musical de raiz popular, como afirmou na ocasião fonte daquela cooperativa.

As suas composições foram interpretadas por nomes como Luís Piçarra, Gina Maria, Amália Rodrigues, Tristão da Silva, António Mourão, Maria de Fátima Bravo, Madalena Iglésias, Maria de Lourdes Resende, Lenita Gentil, Rão Kyao, Júlio Pereira, Guilherme Kjolner, Armando Guerreiro, Carlos Guilherme, Bjorn Ehrling, Richard Winsborough ou Maria do Ceo."
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Que descanse em paz
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NB - Deixo aqui a letra, também de sua autoria,
de uma das suas canções mais bonitas.
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"Chapéu preto
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A azeitona já está preta,
a azeitona já está preta,
Já se pode armar aos tordos,
já se pode armar aos tordos.
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Diz-me lá, ó cara linda,
diz-me lá, ó cara linda,
Como vais de amores novos,
como vais de amores novos
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Refrão
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É mentira, é mentira,
É mentira sim, senhor!
Eu nunca pedi um beijo,
Quem mo deu foi meu amor!
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Ó que lindo chapéu preto
Naquela cabeça vai.
Ó que lindo rapazinho,
Para genro do meu pai.
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Quem me dera ser colete,
Quem me dera ser botão.
Para andar agarradinha,
Juntinha ao teu coração
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É mentira, é mentira,
É mentira sim, senhor!
Eu nunca pedi um beijo,
Quem mo deu foi meu amor!

27 novembro 2016

São quadras, meu bem... são quadras!...

In "Público", em 24 de Abril de 1996
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"A humanidade tem por hábito dedicar um dia por ano a causas perdidas: à criança, à mulher, à vaca inglesa, em suma, aos perdedores". disse o escritor catalão de língua castelhana Manuel Vásquez Montalbán no dia da abertura do XXV Congresso da União Internacional de Editores, e disse mais:
" Há que viver o 23 de Abril como se fosse um verso de Bolero -- " a última noite que passei contigo..." -- conscientes de que poucas vezes temos a possibilidade de ser felizes em troca de uma dose tão pequena de auto-engano! "
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Não há Bolero que exprima
Uns "Olhos negros" que eu vi
Uma promessa falhada
E o perfume que senti...

26 novembro 2016

Os actuais "courts" ténis...

... umas semanas antes da sua inauguração.
Qualquer semelhança com o que o que existe agora naquela 
zona é difícil de distinguir.
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Foto obtida em 3 de Junho de 1973
com o Liceu em destaque e a Serra de S.Luis lá ao fundo.

25 novembro 2016

Filosofia curtíssima...

O ser humano é incrível: corta uma árvore para fazer papel para nele escrever "salvem as árvores".

24 novembro 2016

Aquelas ilusões antigas...

António Nobre referindo-se ao seu único livro publicado em vida, Só (1892), declara que é o livro mais triste que há em Portugal.

António Nobre

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Ó Virgens que passais, ao sol-poente,
Pelas estradas ermas, a cantar!
Eu quero ouvir uma canção ardente,
que me transporte ao meu perdido Lar.
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Cantai-me, nessa voz omnipotente,
O Sol que tomba, aureolando o Mar,
A fartura da seara reluzente,
O vinho, a Graça, a formosura, o luar!
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Cantai! cantai as límpidas cantigas!
Das ruínas do meu Lar desaterrai
Todas aquelas ilusões antigas
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Que eu vi morrer num sonho, como um ai...
Ó suaves e frescas raparigas,
Adormecei-me nessa voz... Cantai!
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António Nobre
Paris, 1886.
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in. "Só"
Ed. da Livraria Tavares Martins - 1968

23 novembro 2016

Escrito na pedra...

In. “Público
21.11.2016
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O revolucionário mais radical tornar-se-á conservador no dia a seguir à revolução.”
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Hannah Arendt
1906-1975
historiadora

22 novembro 2016

Os canalhas...

...numa coluna do i, intitulada
Livro de reclamações.
Sergio Azevedo
escreveu um artigo do qual destaco
este pequeno excerto

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Sérgio Azevedo 
Deputado
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Aqueles que achavam que era Salgado o único "Dono Disto Tudo"
têm todos os dias a possibilidade de constatar que, afinal,
pulula por aí um conjunto alargado de canalhas.
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(...) O desplante e a ignomínia tomaram conta disto. Aqueles que achavam que era Salgado o único “Dono Disto Tudo” têm todos os dias a possibilidade de constatar que, afinal, pulula por aí um conjunto alargado de canalhas que não só procuram ocupar esse lugar como insistem em gozar com o pagode. Gente que se acha. Gente para quem a pátria é o dinheiro e que se aproveita do seu status para alimentar relações de poder que a colocam acima das obrigações de qualquer cidadão honrado.

António Domingues protagoniza este estado de coisas. Não é possível esperar nada de bom de um tipo que, ao convite para dirigir o banco público, para servir o país num momento difícil de viragem, apenas o aceite com a condição de ganhar mais de 400 mil euros por ano, acrescidos de uma remuneração variável que pode atingir os 50% da sua remuneração anual. Um salário que pode superar os 600 mil euros anuais. Sabemos que a situação da Caixa não é a melhor, mas num ano em que o banco público apresentou resultados negativos perto dos 190 milhões de euros, reduziu quase 50 balcões e libertou mais de 500 funcionários, admite-se que o governo promova uma administração com este tipo de remunerações? Não se admite.

Pior, admite-se que haja a suspeição da existência de um acordo (que ainda não foi categoricamente desmentido por ninguém) para que os administradores da Caixa estivessem dispensados de apresentar as suas declarações de rendimentos? Também não se admite.

Longe vão os tempos de Domingues como fervoroso militante do MRPP. Um Domingues de cabelo comprido e barras de ferro escondidas nas meias. Hoje, dizem, é um homem sem ideologia. Nada que uma gravata Hermès, um fato Canali e alguns milhões no bolso não tratem de resolver. Aliás, não deixa de ser curioso o percurso de alguns filhos do MRPP. Desde a Caixa ao Goldman Sachs, há todo um longo percurso de indivíduos a registar.

Mas então e o governo, onde fica no meio desta trapalhada toda? Onde se coloca este governo patriótico e de esquerda apoiado nas suas decisões por comunistas amigos do povo e bloquistas combatentes das injustiças? Em lado nenhum. Lava as mãos como se não fosse sua a responsabilidade de pôr um ponto final nesta situação

(...)
Cfr. jornal i
21.Nov.2016

21 novembro 2016

Liceu Bocage 1

Liceu Bocage
Ano da Inauguração
1 9 4 9
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Liceu Nacional de Setúbal, em Abril de 1960
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O ano lectivo de 1948-49 teve o seu início no primeiro dia de Outubro.

No Café Central, centro “cultural” da cidade, onde se aprendia a conhecer Setúbal e a envelhecer com Homens Velhos cheios de saber, comentava-se ainda à boca fechada, o último “escândalo” de verão que o jornal “Setubalense” ajudou a propalar... Em finais de Agosto, um título de primeira página “feriu” as sensibilidades dos leitores. “Nudismo integral nas Docas de Recreio e Comércio!” e mais adiante prosseguia: ”Todas as tardes se pratica o nudismo em grande escala...” (22 de Agosto de 1948)
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O enlace matrimonial do jovem Tenente Carvalho Fernandes foi também uma notícia deste final de Verão “Realizou-se em Fátima o enlace matrimonial de D.Maria Helena Duque de Santana, filha do sr. João José Duque de Santana, estimado empregado bancário e de D.Maria dos Anjos Neto Santana, com o sr.José Alves de Carvalho Fernandes, tenente de Infantaria 11, filho do sr. Joaquim Alves Fernandes, digno Chefe de Secção do Tribunal judicial de Setúbal e de D.Adelaide Carvalho Fernandes...” (11 de Agosto de 1948)
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Acabava de falecer uma Senhora de profundas raízes setubalenses e a notícia não deixou de ser comentada. Era assim que rezava a notícia vinda a público na imprensa local: “... realizou-se em Lisboa o funeral de D.Maria Beatriz Ahrens Teixeira de Morais Vaz, esposa de Rui Morais Vaz(...) professor da Escola Industrial Afonso Domingues.
...era natural de Setúbal e tinha 52 anos...
...era filha de D.Maria Inocência O’Neill Groot Pombo Ahrens Teixeira e mãe das senhoras D.Ana Ahrens Teixeira Caes Esteves, D.Berta Ahrens Teixeira Piçarra e D.Paulina Ahrens Teixeira Correia de Melo... (Setubalense, em 18 de Setembro de 1948)
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Em 2 de Outubro, o trissemanário informava que os “ilustres catedráticos espanhóis D.Juan Poiz-Monserrat, D.Juan Artells-Morell e D.Juan Llobet-Orts se preparam para visitar brevemente o museu oceanográfico de que é proprietário e director o ”nosso amigo” sr.Luis Gonzaga do Nascimento".
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Neste mesmo dia é noticiada a inauguração do ano lectivo, no Liceu de Setúbal. O último ano lectivo iniciado no edifício que está prestes a ser abandonado. “Presidiu à sessão solene realizada, S.Exª o sr.Governador Civil, secretariado pelos srs. Governador Militar e Vice-Presidente da Câmara...
Discursou o ilustre Reitor do Liceu, sr.Dr.António Manuel Gamito.
Depois foram distribuídos os prémios Bocage ao aluno António Augusto Macedo, do 6ºAno e o da “Liga dos Amigos do Liceu” à aluna Maria Luisa dos Santos Pinto.
Após este acto, o ilustre Chefe do Distrito fez a entrega de 35 diplomas a outros tantos alunos por terem tido média de 14 valores para cima.
Antes da sessão e após esta, o Orfeão do Liceu cantou os hinos da Mocidade e Nacional.
No final da solenidade o sr. Dr. Francisco Figueira noticiou a inauguração do novo Liceu dentro da época escolar de 1948/49.”
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Neste arrancar do ano lectivo devemos fazer uma chamada de atenção para um facto importante na vida futura do Liceu da nossa cidade.
O corpo docente passa a ter uma nova figura o Dr. José de Mendonça e Costa, homem algarvio de Marmelete (Aljezur), coração ao pé da boca, a lágrima ao pé do olho... Um bom professor, um pedagogo notável, um Homem a quem muito devo como Mestre e como Amigo.
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E sob o título “Mendonça e Costa”, o jornal, na altura, assim dizia: ”Tivemos o prazer de cumprimentar no nosso jornal, o distinto professor sr. Mendonça e Costa, nomeado para fazer parte do Corpo Docente do Liceu Nacional de Setúbal.” (Setubalense, em 9 de Outubro de 1948.)
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Poucos dias depois, em 13 de Outubro, lia-se numa página de anúncios: “Anúncio - Casa. Precisa, higiénica e ampla, na cidade ou na periferia, o professor do Liceu Mendonça e Costa.”
Creio que o Dr. Mendonça e Costa acabou por decidir-se por uma casa “fora de portas”, na periferia... onde morou até se transferir para Lisboa em 1961. Na verdade acabou por escolher para sua residência, o nº39 da Avenida Portela, num rés do chão alto, onde actualmente existe uma das sedes do Partido Socialista... Homem de vistas largas pediu no anúncio uma “casa ampla”... para ele, para a esposa e para a Maria Teresa, sua filha única que então frequentava o 4ºano do Liceu!...
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A propósito das dimensões da cidade de Setúbal, por alturas da inauguração do novo Liceu, e pelo facto de, com certa graça, se considerar na altura a Avenida Manuel Maria Portela como periferia da cidade não devo deixar de assinalar um pequeno apontamento, dado à luz em 23 de Outubro daquele ano, num dos periódicos da cidade e que se referia à longa distância a que se situava o novo edifício...
Sob o título de “Escolas” rezava assim:
“ ...Já o Liceu, (...) fica longe, mas enfim quando existirem meios de transporte, a cousa passa, mas até lá , muito se há-de aborrecer a mocidade escolar nos dias de verdadeiro temporal que costuma fazer...” (23 de Outubro de 1948)
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Em 1 de Novembro, um título na secção de Desporto: “Porto 6 - Vitória 1. Apesar do resultado, os setubalenses não foram inferiores...” Domingos Roque, o autor desta notícia desportiva, devia estar muito inspirado...
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No mesmo dia somos informados que o Dr. Rogério Claro deverá substituir o sr.José Valido Santana no cargo de Sub-Delegado da Mocidade Portuguesa, em Setúbal, por aquele ter pedido a demissão.
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Por esta altura a imprensa não era livre... Digamos que tentava manter uma independência relativamente a certas notícias. Mas, por vezes, alguns jornalistas conseguiam dizer aquilo que lhes estava vedado transmitir...
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Uma notícia respigada em 10 de Novembro noticiava um título muito atrevido seguido de uma notícia, toda ela eivada de um segundo sentido político.
A Intendência Geral dos Abastecimentos era chefiada por um homem chamado Silva Pais cujo nome se confundia com o de um outro Silva Pais, homem tenebroso e temido neste país por ser um dos “crâneos” da polícia política, a Pide. Não recordo se eram familiares (irmãos?) ou se simplesmente teriam o mesmo nome de família.
O Setubalense dá a seguinte notícia com o título:
“As brigadas do sr. Silva Pais”
“Encontram-se em Setúbal, as brigadas do Capitão sr. Silva Pais. Dizem-nos que têm actuado em toda a cidade.  Oficialmente não temos conhecimento de cousa alguma. E, nestes casos, não há nada como esperarmos notas oficiosas que ponham o público a par do que se passa e da possível verdade que possa surgir”
Ao ler esta dúbia notícia sou levado a interrogar-me se estas brigadas seriam as da Intendência Geral dos Abastecimentos... ou se ela não seria apenas uma “ temerosa alusão” às brigadas do sr. Silva Pais, da Pide. E dou comigo a pensar se não teria sido o nosso velho Amigo, sr. Guilherme Faria, a escrever com ousadia esta “arriscada” notícia...
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E logo a seguir uma outra! Três dias depois, o mesmo jornal, na página “A Cidade” e na coluna intitulada “A Abrir” noticiava o seguinte:
“Prendam o “sr. Corvo” que se introduziu em casa alheia e furtou uma carteira com dinheiro."
De igual modo penso que se trata de um título “forçado” pela redacção do jornal aproveitando o nome comum a duas pessoas... Por um lado um qualquer pequeno ratoneiro que tinho o nome de Corvo e por aí andava a fazer das suas, e por outro o chefe local da Pide, o “senhor” Corvo, homem de mão que dominava a polícia política local e cuja sede era ali para a rua dos Trabalhadores do Mar.
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(Cont.)

20 novembro 2016

São quadras, meu bem... são quadras!...

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De moderna a fama trazes
Pelos centros mais mundanos,
E, afinal, o que tu fazes
Já se faz há milhões de anos.
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in "Quadras à solta"
em "O Mundo ri" - Março/1960

19 novembro 2016

Humor antigo...

in. "Anedota Ilustrada" nº8
de Maio de 1961
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- Belo!... Belíssimo!... Ainda bem que o sapato lhe aperta! Agora usa-se um arzinho sofredor...

18 novembro 2016

Filosofia curtíssima...

"As estatísticas são como os biquinis: dão uma ideia mas escondem o essencial."

17 novembro 2016

Parabéns!... 17 de Novembro

A Maria Regina faz anos hoje.
Beijinhos e um belo dia de anos...

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Maria Regina Bidarra Santos Silva

16 novembro 2016

Hoje há pintura...

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Ticiano
Pintor renascentista italiano 
da Escola de Veneza
1490 - 1576.
A vaidade do mundo - 1515
no Museu de Munique

15 novembro 2016

A opinião de VPV...

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O Diário de
Vasco Pulido Valente
7 a 12 de Novembro, 2016
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Vasco Pulido Valente
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"Os bem-pensantes pensavam que a tolerância se fazia por decreto e retórica. 
Tiveram triste surpresa. A brutalidade de Trump respondeu ao ressentimento acumulado da populaça. 
Agora, teremos de o aturar."
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Terça-feira

Com o alarido de Trump, passou quase inteiramente despercebido o livro de dois jornalistas franceses, Gérard Navet e Fabrice de Llomme, que contam através de 100 horas de gravações directas o que foi o mandato do Presidente da França, François Hollande (" Un président ne deverait dire ça..."). O ambiente do Palácio do Eliseu era desde o primeiro dia um ambiente de hipocrisia, de calúnia, de intriga, de mentira e de grossa traição. Para já não falar das cenas conjugais (não estou a falar de sexo) que Hollande conduzia em público, na maior indignidade e que envolveram zaragatas notórias entre as sucessivas senhoras que caíram na asneira de se envolver com ele. Nos dias normais, ministros, secretários de Estado e representantes dessa espécie imunda que dá pelo nome de assessores, não faziam outra coisa senão tentar liquidar o próximo pelos métodos mais torpes da cartilha. Isto não é novo. O que é novo é que Hollande se achasse um grande chefe militar e, nessa exaltada qualidade, não hesitasse em intervir na Líbia, no Mali, na Somália e na Síria. Ou que desse ordens (que se cumpriram) aos serviços secretos para assassinar uns tantos indivíduos, que ele julgava perniciosos. Tinha uma lista, como abertamente se gabou. Mas, para portugueses, o melhor são as reuniões cúmplices e alegres em que ele combinava jocosamente com Merkel e com Juncker falsificar as contas do défice francês (que excedia largamente os 3 por cento) para ajudar a pôr os pequenos países na ordem. Hollande estava convencido que prestava assim um grande serviço à Europa. Parece que Marine Le Pen sobe nas sondagens. Como não subiria?

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Quarta-feira

Antes da revolução, a cultura dominante transbordava de “corações sensíveis” (incluindo o de Maria Antonieta), devotos da razão e de gente “honesta”, que não roubava ninguém e se vestia com austeridade para se distinguir da aristocracia da Corte. A tolerância era universal e os costumes brandos. Ninguém via como a sociedade e o mundo podiam evoluir de outra maneira. Isto em 1789. Em 1794, esta nata de bem-pensantes, com a sua tolerância e o seu grande amor à liberdade, estava toda no exílio ou na guilhotina do Terror. Ninguém naquele cintilante e humano grupo percebera que não passava de uma minoria pretensiosa, que ofendia o povo, a pequena-burguesia, a classe média e a nobreza tradicional e conservadora. Ninguém percebera também que a sua opinião era uma opinião, mas não era a opinião. Ao contrário do que pensavam, em Paris como na província, a generalidade das pessoas detestava o arzinho de superioridade daquele “modernismo” célebre, virtuoso e geralmente de algibeiras cheias. Quando chegou a altura não houve piedade com ele.

Trump escapou ao que escapou, não apesar do que disse na campanha, mas por causa do que disse na campanha. A boa da plebe andava farta de “valores” e de elevados sentimentos: só os censores do jornalismo e da política os levavam a sério. O resto da América sofria no campo, na “cintura da ferrugem” ou nas ruas da violência, onde, com ou sem Obama, começava uma guerra civil larvar. No meio deste caos, apareceu um primitivo que começou a berrar o indizível: sobre raça, sobre a igualdade de género, sobre homossexualidade e por aí fora. Os bem-pensantes pensavam que a tolerância se fazia por decreto e retórica. Tiveram uma triste surpresa. A brutalidade de Trump respondeu ao ressentimento acumulado da populaça. E a pouca política que, do lado dele, entrou na campanha foi uma exibição quase hitleriana de ódio, de raiva e de vingança. Agora, teremos de o aturar e, pior ainda, sem saber para onde ele na sua loucura nos levará. Descobrir uma coerência qualquer na série de enormidades de que o homem se aliviou é impossível. Só nos resta esperar, resignadamente, que a América se farte dele (a baixo custo) e que por milagre nós consigamos passar entre os pingos da chuva.
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Sábado

Como é que a salvação do maior banco português, por ser público e carregar as culpas de alguns governos já bem mortos e quase esquecidos, criou um problema político e jurídico, que provavelmente o vai prejudicar e, com ele, todo o sistema financeiro? Para mim o mistério desta história toda está em que não há um único culpado para o imbróglio. Parece que o primeiro-ministro e o ministro das Finanças não tiveram nada com isso e que as manadas de juristas da Presidência do Conselho e da administração central estavam a dormir. Ninguém confessou um erro, uma inadvertência, uma confusão. Só os partidos (tirando o PS) se esganiçaram, segundo o seu hábito e vocação, a proclamar a sua virtude e a santa defesa do contribuinte. Como, aliás, Marcelo Rebelo de Sousa, que perpassa por detrás desta história toda, esperou para abrir a boca que o sarilho estivesse consumado: não lhe dizem nada? e ele não pergunta nada?

Mas como querem estes senhores que os levem a sério, quando um governo normal e um Presidente normal teriam tratado do assunto em meia dúzia de dias, sem desentendimentos, sem conflitos, sem a exaltada polémica que por aí consola e alimenta os comentadores? Que o problema de nomear um nova administração para a Caixa Geral de Depósitos sirva de causa e de pretexto para pôr o país num estado de indignação geral (quer a favor de Domingues, quer a favor da lei) é um sintoma da nossa incapacidade nacional e da crescente deterioração do regime em que infelizmente vivemos.

14 novembro 2016

Escrito na pedra...

In. “Público”
08.10.2015
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Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa de apagar o caso escrito.
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Machado de Assis
1839-1908

Escritor brasileiro